Ciclo Incursões Experimentais

Programa do Ciclo:

FENÓMENOS ENTÓPTICOS (27 ABR) + info

PESADELOS INDUSTRIAIS (04 MAI) + info

CINECONCERTO COM ∩ (Intersectiō) (11 MAI) + info

 


 

“Por uma prática artística descentrada da narrativa tradicional”

por Benjamim Gomes (ex-aluno de Som e Imagem)

 

Enquanto ex-aluno do curso de “Som e Imagem” na Universidade Católica, convivi diariamente com outras pessoas à procura de uma voz dentro da prática do cinema. Por mais técnica que seja a inclinação dos alunos do curso, estes, eventualmente, deparam-se com a necessidade de desenvolver um projeto. E, mais, do que uma vez, sentem-se perdidos como moscas a baterem num vidro, e decidem refugiar-se na narrativa tradicional. Ou pelo menos numa tentativa aproximada da mesma como núcleo para as suas primeiras obras.

Embora obviamente entenda que a procura da visão artística depende única e exclusivamente do artista, sinto que em três anos de licenciatura, podia ter havido algum ponto de entrada na consciência coletiva dos alunos do que é, concretamente, o cinema experimental e as possibilidades do mesmo. Reduzido na ótica de muitos a pseudo-intelectualismo ou a simplesmente documentários não tradicionais, o cinema experimental claramente é muito mais do que isso. Representa não só a procura de ultrapassar as fronteiras do próprio cinema como também a libertação da tradição, do arco narrativo e da cronologia temporal. Sendo também a sua presença na consciência de novas vozes do meio - mesmo que acabe por não ser representante da prática destes indivíduos -, pode funcionar como contrapeso mais que necessário, algo que mostre o tipo de liberdades que se pode tomar dentro do espectro do cinema.

Tentando então servir como exemplo das possibilidades que o cinema experimental traz, surge este ciclo, intitulado Incursões Experimentais, numa proposta que, ao longo de três sessões, nos leva desde curtas metragens experimentais não narrativas a longas metragens narrativas e a um cine-concerto.

Desde o início do próprio cinema experimental que a relação do mesmo com o olho está presente, servindo de exemplo filmes como Filmstudie (1926) de Hans Richter ou Un Chien Andalou (1929) de Luis Buñuel onde este órgão é figura central. Nesta sessão, intitulada Fenómenos Entópticos, intitulada como referência aos efeitos visuais originados no olho em si, iremos atravessar dez curtas metragens experimentais, partindo do cândido documentário Window Water Baby Moving (1959) de Stan Brakhage, que nos mostra o nascimento do seu primeiro filho, até à peça meta cinemática Dream Work (2001) de Peter Tscherkassky em que o realizador manipula o próprio tecido fílmico de The Entity (1982), de Sidney J. Furie, substituindo o poltergeist transgressor antagonista do filme original pela própria película que, à semelhança de Lúcifer no Nono Círculo do Inferno descrito por Dante na sua Divina Comédia, tritura a atriz principal viciosamente.

Os restantes oito filmes que compõe esta sessão são; Gerorisuto (1986) de Shozin Fukui, At Land (1944) de Maya Deren, Don’t - Der Österreichfilm (1996) de Martin Arnold, For My Crushed Right Eye (1969) de Toshio Matsumoto, Take The 5:10 to Dreamland (1976) de Bruce Conner, Coyolxauhqui (2017) do colectivo Los Ingrávidos, Thunder (1982) de Takashi Ito e Fuses (1967) de Carolee Schneemann todos eles escolhidos e ordenados para transmitirem esta abstração progressiva do real e do narrativo ao longo dos dez filmes.

Na segunda sessão, intitulada Pesadelos Industriais, iremos ter uma double feature de duas longas metragens icónicas, tão próximas como gémeos sesquizigóticos, que nasceram sem budget, produzidas apenas pelos respetivos realizadores, representando assim a visão artística pura que as elevam ao seu estatuto lendário. Estas duas longas metragens são Eraserhead (1977) de David Lynch e Tetsuo: The Iron Man (1989) de Shinya Tsukamoto respetivamente. No primeiro filme, temos a história de um pai e do seu filho mutante que preenche um espaço industrial e surreal desolado. Apesar do pouco reconhecimento inicial, a popularidade do filme e o estatuto de culto foi ganho nas midnight sessions à semelhança do clássico de Alejandro Jodorowsky, El Topo (1970). O segundo filme, apresenta-nos a história surreal de um homem atormentado por visões de metal e máquinas industriais que progressivamente se transforma num monstruoso híbrido de homem e máquina sendo uma das estrelas mais brilhantes na constelação do cinema cyberpunk japonês, encabeçado por realizadores como Sogo Ishii, Shozin Fukui e Takashi Miike. Outra caraterística comum destes dois filmes é a sua banda sonora, composta por música industrial e noise, géneros musicais surgidos sob a alçada da música experimental e que partilham o seu ethos. Nestes géneros temos como bons exemplos o trabalho de bandas como Einstürzende Neubauten ou Throbbing Gristle que utilizavam objetos como barras de ferro e ferramentas de construção, mas também instrumentos desenvolvidos pelos próprios músicos para transmitir a sua visão específica incapaz de ser traduzida pelo equipamento existente e quebrando assim a tradição musical da altura à semelhança da quebra do cinema contemporâneo dos dois filmes apresentados nesta sessão.

Para concluir o ciclo, teremos o prazer de ter connosco Ricardo Nogueira Fernandes, trabalhando sob o nome ∩ (intersectiō), num cine-concerto em colaboração com o cineclube EA. Nesta sessão, irá ser explorada a relação da civilização com a cor azul, que, devido à dificuldade em ser sintetizada para utilização, foi a última cor primária a surgir no léxico das primeiras civilizações afetando assim a própria compreensão ao nível psicológico da cor. Esta é, por exemplo, descrita por Homero na Ilíada como “vinho escuro”. Esta sessão irá assim encapsular o ciclo utilizando as referências do cinema e da música experimental para a sua realização.


 

27/4/2021, 18h30 | ONLINE

FENÓMENOS ENTÓPTICOS - SESSÃO DE CURTAS METRAGENS EXPERIMENTAIS
 

Folha de Sala   | Sinopses 

Programa da sessão
 

1 - WINDOW WATER BABY MOVING de STAN BRACKAGE

2 - GEROSISUTO de SHOZIN FUKUI

3 - AT LAND de MAYA DEREN  

4 - DON'T - DER ÖSTERREICHFILM de MARTIN ARNOLD

5 - FOR MY CRUSHED RIGHT EYE de TOSHIO MATSUMOTO 

6 - TAKE THE 5:10 TO DREAMLAND de BRUCE CONNER

7- COYOLXAUHQUI de COLECTIVO LOS INGRÁVIDOS

8- THUNDER de TAKASHI ITO

9- FUSES de CAROLEE SCHNEEMANN

10- DREAM WORK de PETER TSCHERKASSKY

 


 

Folha de sala 

 

“A militância do deslumbramento - pistas para um panorama do cinema radical”

 por Manuel Pereira (tradutor / editor)

O cinema que faz da experimentação o seu ponto de partida, e que, também por isso, não se inibe de desarranjar as ideias pré-concebidas do que este deve ser, torna-se radical, intransigente nesta sua busca de essência, remetido por imperativo ético e complexidade estética para uma certa ideia de marginalidade. Descarna camadas adicionais que o cinema que se tornou mainstream impôs e foi acumulando – a narrativa, uma lógica de organização espacial e temporal, um encadeamento castrador – muitas vezes herdados do teatro e/ou da literatura. 4 como tal, alheados desse esforço de depuração que o cinema experimental pressupõe e empreende, numa aventureira busca da raiz formadora e definidora da arte e(m) movimento. Aquilo que aparenta ser um pressuposto limitador, potencia, como é notório nos exemplos aqui apresentados,  uma quase ilimitada riqueza de propostas e soluções, muitas vezes  contraditórias, mas sempre desdobrando-se numa entusiasmante gama de  opções estilísticas que enformam um fazer cinematográfico que é também,  sempre, um pensamento sobre cinema.

O cinema experimental representa assim essa busca incessante, uma curiosidade primordial que a rotina vai tornando mais rarefeita e conformada, e a retina, agora devidamente estimulada, resgata ao marasmo. Cinema que confronta a tradição, mas que bebe da sua História, que muitas vezes busca nas suas origens remotas a inspiração para o despir dos artifícios que revestem de clausura narrativa o puro e militante deslumbramento do olhar.

Window Water Baby Moving

O líquido amniótico omnipresente, como metáfora envolvente e primordial, e uma montagem fragmentada que retalha a sequência narrativa convencional e o seu poder impositivo - é um olhar que se autoriza à mais visceral intimidade,  brutalmente honesta, a uma beleza explícita e intensa, sublime de uma violência que é a do ciclo da existência, do nascimento à morte. 

Gerorisuto

Num filme vincadamente voyeurista, pautado por uma intromissão no espaço público e no olhar dos transeuntes, a mulher circula numa histeria febril e animalesca (a lembrar Possession de Andrzej Zulawski), e o corpo autoriza-se a essa regressão – vomita, estará possuído por uma entidade demoníaca? Será essa encenação irracional a marca de uma presença paranormal, externa, ou o exagero da sua inadaptação, o forçar do confronto numa performance que cruza linguagens e desmonta expectativas ?

At Land

Herdeiro da estética de um surrealismo mais clássico, este é um filme deambulatório e labiríntico, que invoca uma narrativa paralela a partir do mar como espaço de  gestação, escapando da clausura da racionalidade e do mundo natural e  intrometendo-se numa outra realidade - amplificada, intensificada, sinestésica.

Don’t - Der Österreichfilm

O olhar que escava os arquivos e se confronta com memórias partilhadas ou imaginadas é a marca identitária do cinema que recorre ao found footage para se constituir. Não tão rítmico e assente em jogos formais como alguns outros filmes do autor, há aqui uma estratégia estilística recorrente (o uso do rewind) que remete para esse olhar para o passado, além de um tom mais onírico, marcado pela lentidão e por um lullaby entoado em loop, sereno e assombrado.

For My Crushed Right Eye   

Inserido no psicadelismo japonês, enquanto corrente estética e conjunto de estratégias, incorpora outras linguagens que aqui se complementam, como sejam a música, a ilustração, o design gráfico ou a fotografia. O dispositivo essencial é o duplo ecrã (que também podemos encontrar em obras essenciais como Chelsea Girls de Andy Warhol ou em alguns dos filmes iniciais de Werner Schroeter). Potencia-se um simultâneo diálogo e confronto entre ambos. O filme assenta em grande parte nessa complexa ligação, uma dualidade que o olhar constrói pela articulada desregulação das sequências visuais, das suas temporalidades e encadeamentos. Como os dois hemisférios cerebrais que se alimentam um do outro e necessitam dessa aspiração à unidade, este cinema é o de uma revolução mental mais que política, visual, de pura imaginação.

Take The 5:10 to Dreamland  

Nome pioneiro do found footage, este filme é uma incursão quase psicanalítica nos EUA como território fundado no trauma, uma terra intocada ainda por desbravar pelos pioneiros de uma imagem ruminada em lirismo e sonolência.

Coyolxauhqui

Caótico, com uma estrutura rítmica decalcada do free jazz, o filme não permite que o olhar se fixe na paisagem; ao invés, este afunda-se nela, teme-a e ao seu desfocado frenesim alucinatório. Encarnando a sinestesia como fio condutor, provamos o ritmo, deliciamo-nos com o som das cores, ensurdecedemos com o lixo e as carcaças que habitam a parte final do filme, mais fúnebre e hipnótica.

Thunder

Um pulsar glitchy marca todo o filme, criando um minimalismo ameaçador em que uma imagem é recorrente: a mulher esconde os olhos com as mãos – do que pretende escapar? O que é que não quer ver? Híbrido e opressivo, entre o cinema e a instalação, pela ocupação do espaço e pelo desdobramento que a montagem possibilita.

Fuses

Pornografia descontextualizada pela ampliada fragmentação dos corpos, agora isolados na atomização de um desejo não autorizado, clandestino, e do olhar que lhe dá guarida, pelo tendencial diluir da emulsão química e sua primordial configuração.

Dream Work

Denso e excessivo, como uma overdose de imagens resgatadas aos arquivos do cinema, de que o cineasta se apodera e esventra num notável trabalho de cirúrgica reconversão da matéria e do processo. Pesadelo saturado num preto e branco intenso e incisivo, levado ao limiar do visível por uma microscópica e epilética implosão, no sentido do puro estímulo visual e rítmico.

 

 


 

Sinopses

 

1- WINDOW WATER BABY MOVING de STAN BRACKAGE

Estados Unidos, 1958, 13’

Neste documentário íntimo, Stan Brakhage mostra-nos na primeira pessoa o nascer da sua primeira filha, Myrrena.

 

2- GEROSISUTO de SHOZIN FUKUI

Japão, 1986, 11’

Claramente inspirado na performance de Isabelle Adjani no clássico Possession de Andrzej Żuławski, seguimos uma jovem japonesa que talvez possa estar possuída.

 

3- AT LAND de MAYA DEREN 

Estados Unidos, 1944, 15’

Através de uma narrativa surreal, Maya Deren interpreta uma mulher que embarca numa estranha jornada onde encontra outras pessoas e versões dela própria, refletindo assim sobre a dificuldade de manter a identidade pessoal.

 

4-DON'T - DER ÖSTERREICHFILM de MARTIN ARNOLD

Aústria, 1996, 4’

Martin Arnold utiliza found footage de vários filmes austríacos para criar um filme de quase terror, subvertendo assim o material primário do seu filme.

 

5- FOR MY CRUSHED RIGHT EYE de TOSHIO MATSUMOTO

 

Japão, 1968, 12’

Duas séries de imagens são projetadas lado a lado mostrando caoticamente o Japão nos anos 60, manifestações de estudantes, anúncios e pop culture.

 

6- TAKE THE 5:10 TO DREAMLAND de BRUCE CONNER

Estados-Unidos, 1976, 6’

Neste filme, Bruce Conner utiliza found footage dos anos 40 e 50 para criar uma homenagem ao cinema surreal e a realizadores como Maya Deren, Kenneth Anger e Sidney Peterson.

 

7-COYOLXAUHQUI de COLECTIVO LOS INGRÁVIDOS

México, 2017, 10’

Poema visual sobre a natureza cíclica dos mitos e rituais tradicionais. Este filme faz parte de uma trilogia que se propõe como um ato de resistência política, explorando a conexão dos atuais feminicídios mexicanos com formações culturais mais amplas.

 

8- THUNDER de TAKASHI ITO

Japão, 1982, 15’

Neste filme, Takashi Ito utiliza sequenciamento fotográfico para perverter as noções convencionais de perceção espacial partindo de imagens quase espectrais de uma mulher a descobrir a cara com as mãos.

 

9- FUSES de CAROLEE SCHNEEMANN

Estados-Unidos, 1969, 22’

Neste filme Carolee Schneemann subverte as convenções da pornografia para criar um filme erótico com um olhar quase caleidoscópico onde deixamos de objetificar os corpos dos atores.

 

10- DREAM WORK de PETER TSCHERKASSKY

Aústria, 2001, 10’

Dream Work, em CinemaScope e em preto e branco, tem a mesma duração que um período de sono profundo. No momento em que a mulher entra num prédio, tira os sapatos e depois a roupa interior (com um enquadramento lascivo), ela torna-se inevitavelmente sujeito e objeto.

 


 

 04/05/2021, 18h30 | ONLINE
ERASERHEAD
de David Lynch
Estados-Unidos, 1977, 89'

TETSUO: THE IRON MAN
de Shin'ya Tsukamoto
Japão, 1989, 67'


 

Sinopses

Henry Spencer tenta sobreviver no seu ambiente industrial, na sua namorada zangada e nos gritos insuportáveis de seu filho mutante recém-nascido.

*

Após um casal acidentalmente atropelar um homem e esconder o corpo, o marido, um empresário japonês, começa a ser atormentado por visões de metal que transformam a sua carne.

 


 

Folha de sala

 

"What sphinx of cement and aluminium bashed open their skulls and ate up their brains and imagination?"

 

 por André Coelho / Metadevice (músico e ilustrador)

Ao cair nas fornalhas do Moloque, nada restará a não ser cinza. Da viscidez das suas  chamas emana a luz do progresso - ponto único de vitalidade cromática -, o fatal  encantamento do horror utópico.

Esta radical aniquilação cromática incorpora os preceitos da industrialização: a uniformização, repetição e massificação - os vetores positivistas da técnica / do aço reluzente / da possante mecanização que contém pesadelos enantiodromicos da monstruosidade, corporalizados simbolicamente no maximalismo orgânico da escória. Os gumes verticais das chaminés e dos vértices zincados rasgam as celestes aspirações aos voos de Ícaro. Resta só a implosão. Esmagado pela mitologia/utopia do progresso, o alienado grita – anomalia biológica a ser retificada pelo hostil mundo artificial e hipersaturado que o Homem criou para si mesmo. Desengane-se aquele que julga ser o espírito capaz de resistir às chamas: também este atinge um ponto de fusão. Os corpos e os comportamentos são assim fundidos e moldados, mas o circuito é autofágico - afinal, através das cinzentas lentes moloquianas, o sangue que jorra da carne dilacerada partilha da mesma viscosidade negra que constitui o óleo das peças metálicas alojadas na abertura muscular. O ciborgue é, portanto, trôpego e disfuncional. A inflamação da carne, a incompatibilidade entre desejo fisiológico e artificialidade geométrica, a dismotilidade emocional: clímaxes de inoperância pessoal e/ou inaptidão gregária. Transformados em não-vivos, acinzentam-se, negando qualquer possibilidade de policromia. É a consequente dissolução do que resta de humano na superabundância psicofisiológica do progresso.

Tecno-mantra cancerígeno: expansão das metástases. (devir distópico.) Ruído. Escória.  Cinza. 1,538 °C. ponto de fusão da psique. Implosão. A psicodeflagração de um mundo interior é assim o último estádio de total metastização: espectros tentaculares do progresso. As ferruginosas asas exoesqueletais de um Ícaro num entrópico voo picado; vetor – colapso; rotação – rumor; inexorabilidade maquinal; predominância do  utilitário ritmo circular.

Não se pense que este grito é o da revolta: é apenas mais uma modelação do ruído contínuo. O ser monstruoso não surge como consequência de um gesto de oposição, mas antes por via do extremo fetichismo. Uma geologia visceral da tecnologia industrial – a esfera carbonizada. Escória.

Finalmente, a redução do corpo a um detrito liberta-o da sua função, escapando assim dos sistemas utilitários.

Tetsuo e Eraserhead: a entrega à irreversibilidade da combustão nas entranhas do Moloque.


11/05/2021, 18h30 | AUDITÓRIO ILÍDIO PINHO
CINECONCERTO COM RICARDO NOGUEIRA FERNANDES (∩ - INTERSECTIO)

 

 


Sinopse

Ricardo Nogueira Fernandes, trabalhando sob o nome ∩ (intersectiō), apresenta-se em cine-concerto, em colaboração com o cineclube EA. Nesta sessão, irá ser explorada a relação da civilização com a cor azul, que, devido à dificuldade em ser sintetizada para utilização, foi a última cor primária a surgir no léxico das primeiras civilizações afetando assim a própria compreensão ao nível psicológico da cor. Esta é, por exemplo, descrita por Homero na Ilíada como “vinho escuro”. Esta sessão irá assim encapsular o ciclo utilizando as referências do cinema e da música experimental para a sua realização.


 

Folha de sala

 

“BLU ▪ BLAU ▪ BLEU ▪ AZUL”

por Ricardo Fernandes (Produtor)

Visões de décadas passadas assombram-no. O seu único olho, centrado na sua cabeça, roda esquizofrenicamente sem saber o que focar. Ligado ao passado e ao futuro pelo mesmo cabo a informação transborda e metamorfoseia-se em algo intemporal. Surgem fragmentos, cores, imagens, violência, prazer. O sistema é levado ao seu limite, contagem decrescente para o meltdown. As frequências cruzam-se, somam-se, subtraem-se. O subsistema de tradução RGB começa a focar num único espectro, um espasmo final eletrónico para prevenir a autodestruição. 666 THz. Inicia-se o programa de comparação espectral de cores para determinar o sinal. Azul. O olho, agora transfixo num centro, procura padrões no caleidoscópio que lhe surge à frente. Uma mão, um pé, restos da sua antiga humanidade. Terá o sistema sido levado à paranoia? Cada vez mais o passado infecta a percepção do presente. A tensão entre linhas temporais aumenta, começam a surgir distorções. Perde-se a nitidez, começa a surgir ruído. Num rápido crescendo temos só o caos a transmitir o seu sinal a 200Db, ecos do desespero. Como um buraco negro, a imagem suga-se a si mesma e implode. Finalmente o silêncio. Aniquilação do sistema completa.

À excepção dos fenómenos de sinestesia, condição neurológica que, entre outros sintomas, leva à associação entre cor e som; da existência dos chamados ruído branco, rosa, azul, entre outros; da existência do estilo musical Blues ou mesmo a escala cromática, a linguagem musical, apesar de poder suscitar emoção, pensamento, crítica e reflexão, trata-se de uma expressão abstracta. Tal como a dança, apesar de ter uma linguagem, não sendo figurativa, é a narrativa que lhe atribui o tema e que auxilia a interpretação do movimento.

Como tal, a sonorização de um filme cuja narrativa se fragmenta, entrecruza e cita directa ou indirectamente outros autores, deverá, na sua composição e performance, demolir e fragmentar para depois fazer uma anastilose de uma escultura sonora pigmentada a azul. Tal como a atribuição do que cada cor representada para determinada sociedade se altera consoante a cultura em que se insere, não se pretende uma associação directa a determinado tipo de simbolismo ou emoção à cor azul. Esta será tão volátil como a sua valoração ao longo da história da humanidade. Volátil como a reacção a uma mancha azul de Yves Klein.

Recorrendo-se à matéria sonora do ruído, da repetição e da diluição das estruturas compositivas, pretende-se que esta se materialize e se desintegre em diálogo com as características intrínsecas da película VHS, usada no filme. A instabilidade, a estática, o grão, ou mesmo os artefactos deixados por gravações anteriores. Desta feita, pretende-se dar a ouvir o azul, o que quer que isso seja para cada espectador.