> 31Mai · Fogo de Artifício

 

31/05/2022, 18h30 | AUDITÓRIO ILÍDIO PINHO

 FOGO DE ARTIFÍCIO
de Takeshi Kitano 
Japão, 1997, 103'


Sinopse

Face a profundas dificuldades familiares e profissionais, Nishi abandona a força policial para passar tempo com a sua esposa. À medida que entra num estado depressivo começa a tomar decisões possivelmente nefastas.


Folha de sala

“O Mito de Kitano”

Por Benjamin Gomes (Aluno de Mestrado em Cinema) 

“The struggle itself toward the heights is enough to fill

 a man’s heart. One must imagine Sisyphus happy.”

 Albert Camus, The Myth of Sisyphus

 

De modo geral, a leitura que se faz do livro O Mito de Sísifo de Albert Camus, reitera sempre o facto de que o trabalho “Sisifiano” que é a existência deve ser feito com felicidade. Devemos procurar viver cada dia na expectativa do próximo, pois mesmo que o mundo é absurdo e vazio de sentido, cada um de nós deve-se dedicar à criação de um propósito próprio. Contudo, por mais inspiradora que esta posição possa ser, a verdadeira formulação no livro é: devemos imaginar Sísifo feliz. Imaginar o pobre condenado ao castigo eterno no tártaro como uma personagem feliz parece um pouco errado, sendo essa estranheza o que sentimos ao ver Nishi, personagem deste Fogo de Artifício, a arrastar-se pelas ruínas da sua vida. A filha morta, a mulher com uma doença terminal, parceiros mortos e paralisados para a vida e Nishi completamente impotente. Como poderemos sequer imaginá-lo feliz?

As personagens de Kitano estão habituadas a viver nestes limbos, numa espécie de olho de um furacão de violência extrema onde a sensação de dar um passo em alguma direção parece traduzir-se em morte certa. Como é que é possível lidar com isto? A resposta do realizador parece sempre passar por descer ao abismo, mergulhar na escuridão e esperar sair num lugar melhor. Ou em termos “Camusianos”, imaginar sair num lugar melhor. Em Fogo de Artifício, a solução para Nishi passa pelo sacrifício. Numa tentativa de poder fazer-se útil e repagar as suas dívidas, o detetive torna-se numa figura próxima do arquétipo do samurai, destruindo-se aos poucos numa tentativa de reparação dos seus erros.

No entanto, apesar de toda a desolação que compõe este filme, momentos de felicidade vão pontuando a narrativa. Horibe e a superação da sua paralisia através da pintura ou a mulher de Nishi que parece finalmente encontrar alguma felicidade na viagem que faz com o marido. Com estes momentos, Kitano parece indicar que, mesmo que signifique viver no inferno, a existência serve de algo, ficando esse algo ao critério de cada um. Quando Fogo de Artifício começa a marcar os últimos minutos, vemos a criança a brincar com o papagaio de papel, a família do detetive parece de certo modo reunida (apesar da sua impossibilidade), a câmara afasta-se e ouvimos dois tiros. Nesse preciso momento, devemos imaginar Nishi feliz.