> 15Jun · Invasión

15/6/2021, 18h30 | AUDITÓRIO ILÍDIO PINHO

INVASIÓN
de Hugo Santíago
Argentina, 1969, 123'

 


Sinopse

O esforço de vários homens de meia-idade, liderados por um outro idoso, para impedir a invasão da sua cidade, Aquileia, por um grupo estrangeiro. Numa tomada impossível de definir, os agressores introduzem a sua maquinaria, preparada para uma conquista de larga escala.

 


Folha de sala

“A Cidade é Maior do que a Gente”

por Daniel Ribas (professor e programador de cinema)

 

Nas catacumbas do cinema argentino, estão tesouros passados que cimentam uma proposta de dissolução de um real imediato: Jorge Luís Borges, Adolfo Bioy Casares ou Julio Cortázar montam uma máquina que parece preceder o humano e com a qual nos enfrentamos diariamente. Nestes escritores, tudo acontece numa neblina ofuscante das personagens, das suas histórias, e dos seus inventivos cenários. Para o cinema argentino, este latente espectro das histórias e das ditaduras assume a sua potência máxima em Invasión, o clássico de Hugo Santiago (1969), co-escrito com Bioy Casares e Borges. Atravessado pelas novas vagas europeias (e pelo cinema de Bresson, de quem Santiago fora assistente), o filme é um estranho híbrido de ficção política especular, thriller policial e ficção científica distópica. Formalmente fotografado num preto e branco notável, Invasión procura uma forma de evidenciar os fantasmas de um mal difuso, que prenunciavam as ditaduras sanguinárias que a América Latina viveria, mas também num olhar utópico sobre a comunidade: “La ciudad es más que la gente”, afirma uma das personagens.

Invasión parece ser um espectro que assombra o cinema argentino. Estão, neste filme, características-chave de um imaginário: os heróis desassombrados, humanos; a distância (brechtiana) da representação, criando uma estranheza no universo fílmico; as histórias de desencontros, de poder, e de uma espécie de mal-estar subterrâneo; finalmente, um formalismo cinematográfico, impondo uma montagem agressiva ao lado de uma composição delicada da mise-en-scène. Invasión passa-se em Aquileia, uma espécie de Buenos Aires mítica, ao som trágico do tango (Milonga de Manuel Flores), e é uma espécie de forma que adivinha o cinema do futuro. É um filme tremendamente político, que põe em evidência as tensões da camaradagem, da luta INVASIÓN, contra o inimigo, e o lugar do amor. Na parede, onde a cidade é mapa, vê-se a urgência da humanidade no meio do caos do mundo. Tenta-se dar ordem, esquecer os fantasmas que estão lá fora. Mas, enfim, a vida será sempre um labirinto. Um labirinto dos caminhos que se bifurcam.