Ciclo "Visões Sacrificiais"

 

 

 

"Visões Sacrificiais"

Programa do Ciclo:

DIABEL (11 ABR)

DER TOD DE MARIA MALIBRAN (12 ABR) 

HURLEMENTS EN FAVEUR DE SADE (26 ABR)

 


Texto do Ciclo
 
 

“Visões Sacrificiais ou O Sacrifício da Visão”

por Benjamim Gomes (mestrando em cinema) 

  O senhor B estava hoje, como em muitos outros dias, sentado na mesa cinco à espera do seu café. À medida que a empregada de mesa se aproxima com o seu pedido, um formigueiro começa uma intensa atividade dentro da cavidade ocular esquerda de B, que, certamente incomodado, esfrega freneticamente a pálpebra, tentando chegar com os dedos ao foco da irritação. Mal a menina W pousa o café na mesa, B, num movimento desesperado, agarra na colher, enterra-a sob o olho e num único movimento empurra-o para fora da cabeça - Finalmente, paz. Agora reclinado na sua cadeira, o senhor B pode finalmente voltar às suas atividades recreativas.

  
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11/04/2022- Através dos tempos o sacrifício sangrento abriu os olhos do homem à contemplação desta realidade excedente e sem denominador comum com a realidade quotidiana que recebe um estranho nome no mundo religioso: o sagrado. 

  No transe, o vazio não é ainda verdadeiramente o vazio, mas a coisa, ou o emblema do nada que é a promiscuidade A promiscuidade provoca o vazio em tudo aquilo a que ela causa nojo. O vazio revela-se no horror que a tracção não supera. Ou que supera mal.

  Ao fim ao cabo, nada nos resta senão o gume da lâmina. Mas quem guia a lâmina? A voz do cão negro do vizinho? A sombra que nos aparece em sonhos? O braço torna-se prótese dessa força maligna e o ódio o motor do autómato. O caminho é a matança e o rio de sangue é o trilho que fica para aqueles que querem seguir as passadas. [Papa Sam is old now. He needs some blood to preserve his youth. He has had too many heart attacks. Too many heart attacks.]
 

12/04/2022- De volta à lâmina, agora o olho é a primeira vítima. Sabemos que o homem civilizado se caracteriza pela acuidade de horrores muitas vezes pouco explicáveis. O temor dos insectos é, sem dúvida, um dos mais singulares e desenvolvidos destes horrores entre os quais nos surpreende que esteja incluído o do olho. Com efeito, a respeito do olho parece impossível pronunciar-se outra palavra que não seja sedução, pois nada é mais atraente do que ele no corpo dos animais e dos homens. Porém, a sedução extrema provavelmente fica situada no limite do horror [Sob este aspecto o olho poderia ser aproximado do gume, cuja visão de igual modo provoca reações agudas e contraditórias].

In dem wogenden Schwall,

in dem tönenden Schall,

in des Welt-Atems wehendem All 

ertrinken,

versinken 

unbewußt

26/04/2022- Uma massa amorfa negra arrasta-se pelo chão. O corpo jaz morto no meio de calhaus, destroçado pelo impacto e pelo tempo. A massa negra rapidamente se insere na prisão de carne decomposta. Ajeita-se e rapidamente se põe em pé, atingindo a simulação perfeita do Homo Sapiens. Assim se faz a ressurreição daquilo que não merece ressuscitar. Passados três dias de caminho, o corpo ambulante depara-se com um silêncio ensurdecedor. As ondas não destroem as margens da ilha. Os pássaros planam imóveis e silenciosos. Nem um leve assobio do vento se ouve. Um clarão surge no horizonte. Um feixe de luz reto, como um relâmpago perfeitamente perpendicular ao solo, alarga, tornando-se uma coluna e de seguida uma nuvem. A onda de choque arrasta-se pela terra à velocidade extremamente rápida da destruição mas excessivamente lenta da obliteração da consciência. A massa negra que a tanto trabalho se tinha dado para simular uma existência, é expulsa violentamente do corpo que habitava, ficando impressa no chão, de volta à lama por onde outrora se tinha arrastado. [If the radiance of a thousand suns were to burst at once into the sky, that would be like the splendor of the mighty one … // I am become Death, the destroyer of worlds.]

 O senhor B volta às suas considerações.  “... Considero-me um fabricante de imagens. A imagem é mais importante do que a beleza da pintura… Suponho que tenho sorte, pois as imagens aparecem tão simplesmente como se me fossem oferecidas…” Mas quem faz a oferenda? Quem é o algoz que imola as imagens que invadem o inconsciente? Desde 1925 tenho uma dessas fotografias [imagem da prática do Lingchi, morte por mil cortes],... Nunca deixei de sentir-me obcecado por essa imagem da dor ao mesmo tempo extática(?) e intolerável. E se pudéssemos sacrificar as imagens? Fazer mil cortes? Talvez o carrasco seja o realizador e a nova guilhotina a montagem. Sacrifiquem-se as imagens e que alguém remonte os seus corpos inertes num terrível teatro de marionetas.