> 07Jun · Landscapes in the Mist

 

 

07/07/2022, 18h30 | AUDITÓRIO ILÍDIO PINHO

 LANDSCAPES IN THE MIST
de Theodoros Angelopoulus
Grécia, França, Itália, 1988, 127'

 


Sinopse

Desesperados por encontrarem o homem que pensam ser o seu pai, dois irmãos embarcam numa longa viagem para a Alemanha.

Folha de sala

“Entre a Névoa e o Desespero”
Por Mariana Machado (aluna de Licenciatura em Cinema)
 
A princípio, é curioso, quase irónico, pensar num ciclo chamado Tudo bem, tudo bem que termine com um filme como Landscape In the Mist, tão recheado das paisagens enevoadas que dão nome à obra e povoado por personagens com as quais no melhor dos casos está tudo “mais ou menos”. No entanto, o significado atribuído ao título deste ciclo provém exatamente da anestesia na continuação de viver provocada por repetições como esta, que banalizam assim o seu significado.
 
É neste contexto que surge então a viagem percorrida pelos protagonistas, dois jovens irmãos gregos que partem em busca do seu pai, que, segundo sua mãe, vive na Alemanha. A princípio, parece que estamos diante de um road movie, onde observaremos uma viagem de princípio, meio e fim e num sentido bem definido que eventualmente culminará no encontro esperado desde o início. No entanto, vemo-nos envolvidos numa viagem que parece não chegar a lugar nenhum, a névoa não aparenta desvanecer-se e a própria existência do destino que as crianças procuram começa a ser questionada.
 
Porém, se estas procuravam no seu pai uma figura que delas cuidasse e protegesse a sua inocência do não tão inocente mundo, na sua jornada deparam-se com outras personagens que, de forma mais complexa, adquirem um cariz de certa forma parental. Contudo, se por um lado lhes oferecem a segurança que procuram, por outro complexificam relações que nunca pensaram sequer ser possíveis. E neste caminho em busca de um destino que parece não sobressair no meio da névoa, as paisagens que o caracterizam são as fontes de crescimento que estas crianças não sabiam que as esperava.
 
Poderia ser exageradamente melancólico presenciar este contacto entre o olhar inocente de duas crianças e um mundo cruel, complexo e que nem sempre oferece as respostas que queremos. No entanto, é a simplicidade dos seus olhos que permite ver neste mundo razão para continuar a caminhar em busca de um pai que esperamos proteger-nos e ver numa árvore razão para nos sentirmos tão em casa. À primeira vista, a ausência de pai no (final do) filme pode ter um sabor agridoce, um caráter trágico. Mas é na viagem que estas crianças encontram o(s) seu(s) pai(s), sob diversas formas, mais complexas e mais interessantes, mostrando-lhes que essa figura pura que as protegerá para sempre não existe. Outras existem. O truque é continuar a caminhar.