14 Mai a 28 Mai às 18:30
Ciclo Ousmane Sembène - a Voz da Crítica
Auditório Ilídio Pinho
É um ciclo que tem como propósito dar a conhecer o trabalho de um realizador crucial para a História do Cinema e uma das figuras principais do cinema africano.
Mergulhando em algumas obras que compõem o seu trabalho, o ciclo é composto por três longas e uma curta-metragem do realizador senegalês.
Ao longo das três sessões, iremos ser confrontados com a condição humana através das lentes deste cineasta consagrado.
Ousmane Sembène, nascido a 1 de janeiro de 1923, é por muitos considerado “o pai do cinema africano”.
Esta afirmação tem muito por onde se lhe pegue, uma vez que é o primeiro realizador negro africano a realizar um filme, ou por ser o realizador que levou o cinema africano a níveis internacionais.
Os filmes escolhidos para este ciclo refletem as condições que o povo senegalês e africano vivia tanto no país/continente como fora dele.
Os seus filmes refletem os temas principais da obra de Sembène: o trauma pós-colonial, o papel da mulher, a diferença de classes ou os dilemas religiosos e tradicionais.
O cinema de Sembène fala por África.
Segundo o próprio, o seu cinema representa os africanos para os africanos.
Ousmane Sembène começou por ser escritor, mas entendeu que para chegar ao público, o cinema era a melhor e mais ativista ferramenta, por ser a arte mais apelativa para o povo.
Para ele, o cinema era um comício político contínuo com o público.
Como já referenciado, o ciclo conta com algumas obras da filmografia de Ousmane Sembène que tratam de temas da condição humana e que foram escolhidos e organizados de maneira que se compreenda e sinta a evolução fílmica do realizador e como a sua abordagem ao cinema e às temáticas foi mudando ao longo da sua carreira.
O ciclo inicia com uma dupla sessão: Borom Sarret (1963) e La Noire de... (1966), a primeira curta e a primeira longa-metragem do realizador.
Em Borom Sarret, Sembène retrata o Senegal na era pós-colonial das ocupações francesas, seguindo um carroceiro que tem que lidar com a dureza que é viver nas ruas do país.
A partir de uma abordagem neorrealista, somos confrontados com a luta diária do povo senegalês, luta esta que o realizador apresenta depois no filme La Noire de... pelo ponto de vista de uma mulher senegalesa que emigra para trabalhar em França como governanta e se depara com a maneira que os europeus a discriminam, percebendo o significado de ser colonizada.
O ciclo continua com o filme Mandabi (1968), obra que critica a burocracia senegalesa e as disparidades económicas do país.
Seguindo a jornada tragicómica de um homem que não consegue resgatar uma ordem de pagamento do sobrinho que emigrou para Paris, é a primeira longa-metragem da história a ser falada em uma língua africana, uolofe.
Desde então, Ousmane Sembène realizou todos os seus filmes neste dialeto nativo do Senegal. O ciclo conclui com o último filme do cineasta intitulado Moolaadé (2004) que conta a história de uma mulher que protege através de uma magia de proteção (moolaadé) um grupo de meninas, impedindo-as de passar pela prática de mutilação genital, uma prática comum em alguns locais africanos.
Este é um filme que critica a tradição, a religião, o patriarcado e a crença da imoralidade, é uma ode ao papel da mulher na sociedade senegalesa e à sua força para sobreviver ao mundo injusto em que vive.
O cinema de Ousmane Sembène tem bastante coisas para oferecer, desde questões que nunca levantamos numa sociedade eurocêntrica até à visão bela, realista, cómica e trágica que o realizador tem de África.
Participar nas sessões deste ciclo trará uma nova ideologia para o espectador e mais conhecimento do cineasta que não encaixa na definição de mainstream.
(José Antunes, aluno de Licenciatura em Cinema e programador do ciclo)