26 Jun às 18:30
Médio Oriente: Sessão de Curtas Metragens
Auditório Ilídio Pinho
* Sessão à quarta-feira
Cultura e Resistência
Olhar imagens é testemunhar.
E ser testemunha é reconhecer a importância naquilo que vemos.
Somos, desde outubro de 2023 (curiosamente, coincidindo com o início do ano letivo), assaltados, quer nos meios de comunicação tradicionais, quer nas redes sociais, por imagens de destroços, bombas, gente estropiada, faminta, desalojada. Qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento saberá – e não se pretende aqui criticar a ignorância, mas sim combatê-la – que o que se passa a quatro mil quilómetros a Este de Portugal não é uma situação nova, mas sim mais um parágrafo numa longa história de ocupação e opressão de um povo sobre outro.
Poderia presumir-se, no entanto, que a exponencial proliferação de imagens capturadas em territórios de guerra contribuiria para um maior esclarecimento sobre a realidade, e que, ao sermos obrigados a olhar, seríamos, no mínimo, obrigados a confrontarmo-nos com essa realidade.
Fora o habitual coro de negacionistas (com o qual nem valerá a pena discutir), este confronto com a realidade parece-nos tímido e insuficiente.
Além disso, numa Universidade onde a mera palavra “Palestina” parece proibida – havendo, no entanto, quem convide embaixadores de estados coloniais –, numa Faculdade onde nos ensinam a ver e a pensar imagens, parece-nos que o mínimo que podemos fazer é oferecer à comunidade a possibilidade de olhar e de ver: de olhar algo diferente quando o habitual já não é suficiente.
De facto, seria fácil programar uma sessão que retratasse a ocupação de forma quase jornalística, e que obrigasse o espectador a confrontar-se com imagens de violência ou testemunhos dos violentados no habitual formato talking head.
Filmes como Gaza (Garry Keane, Andrew McConnell, 2019) ou Born in Gaza (Hernán Zin, 2014) seriam, certamente, boas escolhas.
Não obstante, cremos que esta abordagem é redutora ou até gratuita, mesmo que reconhecendo alguma dificuldade em apelidar de gratuitas as imagens de crianças decapitadas, quando estas são divulgadas pelos seus familiares exatamente por serem extremas - tal se passa, é claro, porque continuamos adormecidos quando essas são ligeiras.
Desta forma, a programação desta sessão obedeceu a dois eixos: o primeiro, ao reconhecimento de que o cinema de um país ocupado ou de um povo em guerra, ainda que possa refletir estas condições, não tem, forçosamente, de deixar explícito que é sobrea guerra ou a ocupação; e, o segundo, ao desejo de mostrar que, mesmo em condições extremas, a criatividade permanece fértil e existe uma infinidade de manifestações culturais e abordagens estéticas possíveis.
Consequentemente, optou-se por dar a voz a estas populações (ainda que com um pequeno desvio a Godard, porque Godard é Godard) e trilhar um caminho eclético ao longo de 100 minutos.
Glow of Memories é um filme assente na imagem (fixa) enquanto memória, recorrendo a pinturas e fotografias; The Road to Palestine é uma curta de animação, criada em conjunto com crianças palestinas e alemãs; e Your Father Was Born 100 Years Old, and So Was the Nakba é um desktop movie.
Já The Visit é um filme abstracto e onírico, o qual, cruzando poesia, pintura e imagem real, contrasta com a crueza documental de Palestinian Identity. Ademais, Cyber Palestine, uma ficção, grita “estética Y2K”, e Godard escreve-nos a sua carta visual aos objetores de consciência israelitas.
Por último, fechamos com um quase-videoclip a The Urgent Call of Palestine, o hit folk da egípcia Zeinab Shaath.
Não acreditamos, naturalmente, que uma sessão de cinema para uma(s) dezena(s) de pessoas tenha algum impacto concreto na vida de seres humanos bombardeados a quatro mil quilómetros.
Mas a criatividade e a arte são sempre resistência: o genocídio não se faz só contra indivíduos de carne e osso, mas também contra a sua cultura e ideias. É também por isso que continua a ser imperativo envolvermo-nos com a cultura daqueles que resistem.
(Diogo Pinto, estudante do Mestrado em Fotografia e programador da sessão)