Ciclo "There Is No Place Like Home"

 

 

 

"There Is No Place Like Home"

Programa do Ciclo:

SOLYARIS (08 FEV)

LES CREATURES (15 NOV) 

YUME/DREAMS (22 NOV)

 


Texto do ciclo 
 

“There Is No Place Like Home”

por Eva Direito (Aluna de Mestrado de Conservação e Restauro de Bens Culturais)

A casa é uma extensão do nosso corpo. Materialmente atua como uma prótese com a função de proteger da intempérie, dos inimigos, dos predadores, tornando-se num espaço seguro que reverte num elemento fundamental para a nossa sobrevivência e bem-estar. Segundo Le Corbusier, “the house has always been the indispensable and first tool that he [man] has forged for himself”, ou seja, a casa é vista como uma necessidade básica que primordialmente apresentava uma arquitetura simplista e pragmática, construída com materiais locais, para mais tarde vir a tornar-se num bem de consumo representante da individualidade e do tipo de relação que a pessoa que nela habita possui com o lugar e a sociedade onde se insere.  Contudo, o espaço de casa pode ser definido de diversas formas, sendo que, como já referido, pode adotar o formato físico de lugar, com determinadas características e coordenadas correspondentes a um ponto no globo terrestre; ou então pode corresponder a um espaço onírico, construído com memórias e fantasias, onde a virtualidade e a imaterialidade constituem os pilares dessa casa. Freud inclusive conseguiu através da psicanálise categorizar os espaços da mente humana, sendo que existe o estado consciente que permite discernir o real do fictício e guardar memórias consoante a sua relevância; o subconsciente onde estão armazenadas as memórias mais recentes, padrões comportamentais, hábitos e emoções; e por fim o inconsciente onde estão guardadas todas as memórias e traumas passados. Assim, a nossa mente é também composta por assoalhadas, um primeiro andar, um rés-do-chão e uma cave, respetivamente, onde tudo se processa e dá origem a espaços sem qualquer tipo de restrições.

O ciclo “There Is No Place Like Home” é uma ode a um espaço onírico pessoal, composto por lugares cinematográficos de conforto. Solaris, de Andrei Tarkovsky, conjuga a viagem espacial com a exploração do inconsciente humano, ambas antagónicas ao conceito de casa dado que ambas constituem motivo de profundo fascínio por serem tão amplamente desconhecidos. Já em Les Creatures de Agnés Varda, a realidade e a ficção misturam-se, neste filme da Nouvelle Vague, onde, através de uma iconografia desorientadora, consegue-se criar um jogo entre o horror e o bizarro. Por fim, Yume / Dreams assemelha-se a uma casa tradicional japonesa, frágil e construída com detalhe, tal como os sonhos de Kurosawa, onde se revela os seus medos de infância e o receio da destruição daquilo que ele considera casa. 

Concluindo, apesar do título do ciclo evocar a famosa frase proferida pela menina do Kansas sem anunciar qualquer Feiticeiro de Oz na programação, este mantra convida não só a entrarem na casa que construí através da escolha destes filmes, mas também conduz à introspeção e a questionar: “o quê que eu considero como casa?”.