> 18Mai · Espectros Coloniais

18/05/2021, 18h30 | AUDITÓRIO ILÍDIO PINHO

SESSÃO DE CURTAS METRAGENS COM CURADORIA DE BÁRBARA BERGAMASCHI
 

A doutoranda da área de Comunicação e Cultura, Bárbara Bergamaschi, programou uma sessão com um conjunto de curtas metragens experimentais brasileiras que se propõem refletir acerca dos espectros coloniais brasileiros, mas também o espaço da tradição, a transformação dos espaços e as convulsões políticas no Brasil.

 

Folha de Sala  | Sinopses 

Programa da sessão
 

1 - NUNCA É NOITE NO MAPA de ERNESTO DE CARVALHO

2 - ENTRETEMPOS de FREDERICO BENEVIDES, YURI FIRMEZA

3 - A MORTE BRANCA DO FEITICEIRO NEGRO de RODRIGO RIBEIRO  

4 - CASA FORTE de RODRIGO ALMEIDA

5 - SEIVA de LOUISE BOTKAY

6 - REPÚBLICA de GRACE PASSÔ

 


Folha de sala 

“As Cidades e seus Fantasmas”

por Bárbara Bergamaschi (doutoranda em Comunicação e Cultura)

A sessão “Espectros Coloniais” foi idealizada de forma a apresentar ao público português uma relevante produção de curtas-metragens contemporâneas brasileiras que circularam nos principais festivais nacionais e internacionais nos últimos dez anos (2010 a 2020). Os filmes aqui escolhidos são em sua maioria de jovens realizadores - representando diferentes regiões do Brasil - que se destacam não apenas por suas qualidades narrativas, mas pela ousada experimentação de linguagem e pelo debate ético-político que seus filmes propiciam. Os seis filmes desta sessão detêm um ponto em comum: são, cada um à sua maneira, assombrados por "fantasmas" da herança colonialista e escravocrata que ainda permeiam o cotidiano, mesmo que de forma inadvertida. São paisagens, cidades, corpos, olhares, afetos e histórias que são atravessados pelo perspetiva de-colonial aos quais entram em um diálogo dialético.

Antes de mais nada é importante distinguirmos colonialismo e colonialidade. O colonialismo é como ficou conhecida a experiência histórica localizada concreta ao longo do século XVI nas Américas e século XIX na Ásia durante o período das grandes navegações, do mercantilismo e do imperialismo. Já a colonialidade seria uma lógica de poder que extrapola o supracitado período histórico. A colonialidade seria uma forma pela qual o colonialismo funciona como política e hierarquizações, produtora de relações de poder. Como experiência a colonialidade engendra práticas e lógicas internas de funcionamento que perduram para além do período colonial, mesmo após a emancipação e independência das colônias. São os processos de endocolonização, o que o sociólogo Boaventura de Sousa Santos (2009) conceitua em “epistemologias do Sul”.              

Para o autor, tanto "o Sul” como “o Norte" seriam figuras metafóricas e não uma localização geográfica. O “norte” englobaria epistemes impostas e significadas no “sul global" como uma construção eurocêntrica, como parte do dispositivo colonial de controle e poder. A colonialidade, portanto, transborda e se desdobra nas ideologias de raça, nas formas contemporâneas de xenofobia, na organização comportamental de gênero, e no controle dos corpos e sexualidades em prol de uma organização nuclear patriarcal. Essa lógica do imaginário colonizado que Suely Rolnik (2016) denomina "inconsciente colonial capitalístico”, uma perspetiva “antropo-falo-ego-logocêntrica” que fundou formas de poder implícitas interiorizadas no sujeito se encontra em crise incessante e podem ser reverberadas nos filmes desta sessão.

Em Nunca é Noite no Mapa, Ernesto de Carvalho realiza um potente filme-ensaio sem câmera. Através unicamente de imagens do Google Maps capturam-se os “podres poderes” no ato-mesmo de construir sua geografia imaginária. Vemos uma cidade modelo que se impõe como produto idealizado, higienizado para ser importado para o consumo de olhos exteriores. Um filme de dispositivo que utiliza o próprio mecanismo para denunciar a máquina. Em Entretempos, Frederico Benevides e Yuri Firmeza captam as frequências do passado como sismógrafos do terror. Criam interferências no projeto de futuro renderizado da “nova” cidade maravilhosa pós-Copa do Mundo e Olimpíadas. Racham as fissuras do concreto armado, dando a ouvir um lamento soterrado que ainda ecoa de uma sombria memória. Em A Morte branca do Feiticeiro Negro, Rodrigo Ribeiro retoma imagens do império de Marc Ferrez para dar corpo e rosto à carta de Timóteo, uma das muitas vozes da paisagem silenciada ao longo de séculos. Em Casa Forte, Rodrigo Almeida retrata as "ligações perigosas" na cidade de Joaquim Nabuco e Gilberto Freyre, ainda repleta de espíritos, jogos e relatos da Casa Grande e Senzala. Já Seiva de Louise Botkay nos transporta para um universo onírico e da cura no Haiti (que segundo Caetano Veloso “é aqui”) - primeiro país a proclamar o fim da escravidão, imantado pela utopia republicana da Revolução Francesa. Por fim, para encerrar a sessão com chave de ouro, República, filmado durante a pandemia e dirigido por Grace Passô, uma das atrizes de maior força e expressão do cinema e teatro contemporâneo brasileiros, se pergunta, especularmente, que tipo de República nos restou, e para quem ela, de fato, nunca existiu senão como um sonho?

Alfredo Bosi (1996) relembra em "Dialética da Colonização” que as palavras cultura, culto e colonização derivam do mesmo verbo latino colo. O substantivo cultus quer dizer não só o cuidado com a terra como também o culto dos mortos, forma de cultivar a lembrança, de reviver ou esconjurar o passado. Há dois significados de cultus portanto, (1): o que foi trabalhado sobre a terra; cultivado; (2): o que se trabalha sob a terra; culto; enterro dos mortos; ritual feito em honra dos antepassados. O passado enraiza-se na experiência de um grupo por mediações simbólicas como: o canto, a dança, o rito, a oração - e também, porque não: o cinema. Veremos nesta sessão telúrica como cultivar a memória e a cultura apagadas, sem esquecer dos mortos e esconjurando suas vozes subterrâneas. 

Na atual conjuntura, em que o Brasil desponta à frente na necropolítica da Covid-19, após as manifestações do Black Lives Matters e a crescente demanda pela retirada dos monumentos históricos ligados aos “descobrimentos” em diversos países, torna-se urgente trazer para a ágora pública o debate sobre as heranças coloniais, especialmente quando pensamos sobre as relações e pontes culturais entre Portugal e Brasil. Como esses espectros chegam até nós? Como reverberam em nossos corpos? Que tipos de ecos ainda produzem?

 


 

Sinopses

 

 

1- NUNCA É NOITE NO MAPA de ERNESTO DE CARVALHO

Brasil, 2016, 6’

Que diferença faz para o mapa, se ele te contém? Um encontro frontal com o mapa, nos leva a um passeio pelo circuitos da simbiose entre o mapa e as transformações dos espaços na era do capitalismo digital. "O mapa não anda, nem voa, nem corre, não sente desconforto, não tem opinião. Pro mapa não há governo, não há golpe de estado, não há revolução”.

2- ENTRETEMPOS de FREDERICO BENEVIDES, YURI FIRMEZA

Brasil, 2015, 7’

Um canto que evoca. Uma cidade que desmorona. Um prédio que se ergue. Um povo que embranquece. Uma família que convulsiona. Um silêncio que corta

3-A MORTE BRANCA DO FEITICEIRO NEGRO de RODRIGO RIBEIRO

Brasil, 2020, 10’

Memórias do passado escravagista brasileiro transbordam em paisagens etéreas e ruídos angustiantes. Através de um ensaio poético visual, uma reflexão sobre silenciamento e invisibilização do povo preto em diáspora, numa jornada íntima e sensorial.

4-CASA FORTE de RODRIGO ALMEIDA

Brasil, 2013, 11’

Um bairro povoado por fantasmas de um relacionamento e de uma tradição.

5-SEIVA de LOUISE BOTKAY

Brasil, 2010, 11’

Quando menos se espera o encontro acontece e traz consigo muitos sonhos, uma adolescente encontra ou reencontra mistérios do vodu haitiano.
 

6-REPÚBLICA de GRACE PASSÔ

Brasil, 2020, 15’

Numa noite, uma brasileira desperta num país exausto de atos violentos. Um xamã descobre que o Brasil é um sonho. República foi realizado em casa, no início da quarentena de 2020, no Centro da cidade de São Paulo, no bairro República. Filme comissionado pelo Instituto Moreira Salles (IMS).