> 21Jun · Inflatable Sex Doll of the Wastelands

 

 

21/06/2022, 18h30 | AUDITÓRIO ILÍDIO PINHO

INFLATABLE SEX DOLL OF THE WASTELANDS
de Atsushi Yamatoya
Japão, 1967, 85'

 


Sinopse 

Um assassino profissional, Sho, é contratado para localizar a esposa de um rico investidor imobiliário, raptada e violada por um grupo de criminosos. No entanto, o caminho de Sho  cruza-se com o de uma misteriosa mulher que o leva a perder-se entre a alucinação e a realidade. 
 
 

Folha de sala

 

“My Burning Dumdum”

Por Vasco Bäuerle (Alumnus Escola das Artes)

 

Kôya no Dacchi waifu (Inflatable Sex Doll of the Wastelands, 1967), de Atsushi Yamatoya, é um filme que se movimenta de forma violenta e inesperada, tomando ritmos e pulsões alucinantes, numa atmosfera que lembra o cinema japonês de terror mais fino, em filmes como Kuroneko (1968), de Kaneto Shindô, atravessando o surrealismo do cinema italiano de Fellini e uma marcada e soturna estética noir, habitat povoado pelos coiotes que pairam a superfície do filme, alimentando-se de desejos, vinganças, traumas e contradições.

 Inserido no género do cinema Pink, caraterizado pela sua produção de forma independente, filmada em 35mm, num curto período de tempo e com baixo orçamento, focava-se em motivos de apelo sexual (e numa audiência marcadamente masculina). Os seus temas eram, aos padrões contemporâneos, algo difíceis de digerir: mulheres surgiam abusadas e torturadas, eram representadas cenas de pedofilia, incesto e castração e era lugar-comum a mulher ser apresentada como um objeto de desejo e à mercê do poder masculino. Os filmes mais populares eram projetados quase até ao ponto de se desintegrarem. A sua preservação e conservação nos dias de hoje, e o novo interesse gerado por esta produção marginal e independente, parece surgir como bizarra, à luz dos temas tratados por este género de filmes. No entanto, vários motivos surgem para este interesse e movimento arqueológico, sendo este filme parte dessa ecologia.

 Numa indústria marcadamente masculina, surge uma figura de destaque na produção de filmes Pink, uma mulher, Keiko Sato, que usava o pseudónimo masculino de Asakura Daisuke. Os seus filmes destacavam-se por experimentar a potencialidade do género através de experimentação radical, narrativas complexas, personagens icónicas e filmes engajados politicamente. Segunda ela, gostava de “(…) realizadores que conseguissem fazer filmes sinceros que manifestassem a sua personalidade distinta e o seu carácter, e não apenas filmes vulgares de programas para adultos.”

Apesar de não ter contribuído significativamente para a transformação do panorama geral da produção de filmes Pink (no que toca à representatividade de género e à figura da mulher no cinema), surge sem dúvida como propulsora de um cinema definido pelas suas propostas audazes e avant-garde, distanciando-se de um objeto puramente exploitative e surgindo como um objeto relevante para ser (re)descoberto.

O filme abre com um plano geral, aberto, que nos apresenta um cenário árido, surreal e inquietante. Um encontro entre dois homens. O tempo e o espaço confundem-se. Atravessamos uma elipse, que também poderá ser um sonho, uma alucinação. O contrato é fechado entre os dois homens de forma absurda e inesperada. O mercenário, Sho, abate uma árvore, provando a sua habilidade com o manejo de uma Colt 38, que mais tarde será símbolo e metáfora fálica, refletindo sobre a sua masculinidade. Narrativas do passado e do presente cruzam-se, o desejo de vingança surge à flor da pele, os eventos sucedem-se em cadência, tomando laivos de delírio e alucinação, um fever-dream hipnótico que funciona, apesar da sua aparente incongruência.

 

É interessante observar o protagonista e o estudo sobre a masculinidade que este desvela. A sua personagem satiriza a imagem de um tough-guy convencional, apresentando-o como obcecado pelas suas armas (lembrando ligações com Freud). Durante a cena de sexo com Mina (a namorada daquele que jurou vingar, Ko), Sho recusa afastar-se da sua pistola. Momentos antes, descreve o seu processo de matança num monólogo impregnado de intensidade sexual. A dado momento afirma que prefere a sua arma a Mina, surgindo esta como objeto último de poder, o falo. No entanto, ao apresentar a situação em tom satírico e absurdo, o filme parece querer tecer um comentário, ainda que subtil, sobre esta masculinidade tóxica. A sua dimensão é tão assoberbada, que cega e leva ao delírio o seu protagonista, atravessando uma cadência de alucinações e projeções do seu ego, auto apresentando-se como um herói fatal e implacável. Já tarde demais, este apercebe-se da sua situação delirante, de que tudo não se trata apenas de uma fantasia. É assim revelada, o absurdo e a fragilidade da sua performance, da sua figura de herói-fatal que se desencadeia num final trágico e irreparável.