> 07 Dez · A Comédia de Deus

 

7/12/2021, 18h30 | AUDITÓRIO ILÍDIO PINHO

A COMÉDIA DE DEUS
de João César Monteiro 
Portugal, 1995, 170'

 


Sinopse 

As aventuras do senhor João de Deus entre pensamentos-pintelho e gelados paraíso. 
 
 

Folha de sala 

“A Quintessência dos Perfumes”

por Jorge Guerra e Paz

A Comédia de Deus é o “filho do meio” de uma trilogia iniciada com Recordações da Casa Amarela e que termina com As Bodas de Deus. Uma das obras primas do cinema europeu que conta no seu palmarés com um prémio do júri do Festival de Veneza em 1995.

Reencontrámos o proscrito e libertino João de Deus que, deixando para trás uma vida de indigência, é agora mestre geladeiro na gelataria Paraíso, propriedade da ex-prostituta Judite (Manuela de Freitas), uma mulher movida por uma ambição e desejos aspiracionais desmedidos. João de Deus nutre um desprezo profundo pela mediocridade instalada, pelas convenções sociais e pelos códigos morais de uma sociedade apócrifa que rejeita liminarmente e, divide o seu tempo entre a busca incessante pelo Santo Graal dos gelados, o perfume (sabor) perfeito, a sedução de raparigas mais novas e o seu livro dos pensamentos onde coleciona e cola pelos púbicos femininos devidamente catalogados e anotados. 

Todo o filme é uma delirante deambulação pela Lisboa dos anos 90, habitada por personagens pícaras como o sanguinário talhante Evaristo e as desbragadas peixeiras de Alfama. A mescla de referências clássicas e eruditas com brejeirices inusitadas surge, assim, como uma marca de água no cinema de João César Monteiro. Outro exemplo cabal dessa amálgama magistral é a banda sonora do filme na qual, João César Monteiro, que possuía um conhecimento enciclopédico de música clássica, mistura Haydn, Monteverdi e Quim Barreiros.

Para lá da espuma do picaresco existe todo um subtexto digno de nota, aí surge como personagem central o Portugal dos anos 90, atavicamente atrasado e reverencial que, recentemente aceite no “Clube da Europa”, almeja modernidade e ascensão social a todo o custo. Exemplos disso a evocação do bordão  “Ó Evaristo tens cá disto?” extraído de O Pátio das Cantigas, epítome da cinematografia do Estado Novo, como uma referência a um país retrógrado que teima em existir, e destaca-se também a genial cena do evento de apresentação do gelado ao investidor francês, onde não falta a presença do Ministro medíocre e “lambe-botas” que ambiciona chegar a Primeiro-Ministro, o Cónego, que representa o clero, sempre mais empenhado nas suas relações com o poder do que com o povo que apascenta, e o mordaz discurso de João de Deus que faz com que tudo redunde numa parola e provinciana cerimónia, bem ao estilo das pomposas inaugurações que o poder politico da época protagonizava.

De realçar ainda como elementos da grandeza desta obra, a superior fotografia de Mário Barroso, o rigor aplicado na mise-en-scène e a mestria dos planos só ao alcance dos grandes mestres.

Realizador maldito, intelectual desvalido, marginal erudito, poeta louco, génio inadaptado, tudo isto foi João César Monteiro, voz incómoda e ainda tão necessária nos dias de hoje. Lamentavelmente, os episódios anedóticos da sua vida rocambolesca ofuscam, por vezes, o magnífico legado que deixou ao cinema europeu, e impedem que lhe seja feita a justiça merecida e que olhemos para ele como um dos mais importantes e interessantes cineastas de todos os tempos.