> 14Jun · Le Samourai

 

14/06/2022, 18h30 | AUDITÓRIO ILÍDIO PINHO

LE SAMOURAI
de Jean-Pierre Melville
França, Itália, 1967, 105'

 


Sinopse

 

Jef Costello é um assassino profissional que, depois de ser visto por uma testemunha, é simultaneamente perseguido pelos seus empregadores e pela polícia parisiense. 
 

Folha de sala

“A melancolia do noir francês”

Por Sérgio Alpendre (crítico e professor de cinema)

Não se faz a devida justiça a Jean-Pierre Melville. Americanizado demais para alguns, com seus policiais derivados do filme noir; francês demais para outros, com sua melancolia e o ritmo europeus. Esquecem-se todos que ele bebeu tanto na fonte do noir americano quanto o noir americano bebeu na fonte do realismo poético francês. Nesse circuito de mútua influência entre duas cinematografias, Melville está numa posição privilegiada, um mestre do noir à francesa.

Melville atingiu o apogeu com Le Samourai, de 1967, e realizaria depois três excelentes filmes até o fim de sua carreira: L’Armée des Ombres (1969), Le Cercle Rouge (1970) e Un Flic (1972). Todos têm uma marca notável de melancolia, típica daquela época, os anos 1970, em que os filmes são carregados de uma indisfarçável desesperança, tanto no tom das narrativas quando no tipo de luz e cores esmaecidas que apresentam.

Mais do que americanizado ou policialesco, Melville é o cineasta da desilusão. Seus personagens aparecem como párias, quase incapazes de sorrir, e Alain Delon se revela o ator perfeito para personificar essa melancolia. Esse tipo de policial seco e sombrio fará escola na década de 1970 com diretores como Yves Boisset ou Bertrand Tavernier e até mesmo alguns filmes de Claude Chabrol. Foi Melville quem estabeleceu o tom e o teor desse tipo de filme. Bob le Flambeur (1955) foi sua consagração, e me parece claramente superior ao Rififi Chez les Hommes (1955), de Jules Dassin. Le Samourai é sua exacerbação, sua obra-prima.

Le Samourai se inicia com um trecho do “Bushido”, o código dos samurais: “Não há solidão mais profunda que a de um samurai”. Depois disso vemos Delon, aliás, Jef Costello, na cama, numa imagem que remete ao início de Shadow of a Doubt, de Hitchcock: o criminoso à espera. Como um assassino de encomenda, contratado para matar quem ele mal conhece, Jef precisa se manter frio, solitário, escondendo suas emoções de si mesmo para sobreviver à dura profissão. Até que seu crime é visto por algumas testemunhas e ele começa a ser perseguido pelo comissário de polícia vivido por François Périer. O jogo de gato e rato de Un Flic é antecipado de forma invertida. Delon agora é o rato.

Há um momento, o mais belo do filme, que caracteriza perfeitamente essa melancolia que a tudo contamina; quando Jef Costello volta pela primeira vez ao clube noturno onde assassinou uma pessoa e observa, de longe, a pianista que poderia tê-lo identificado à polícia, mas não o fez. O olhar dele, de profunda tristeza, encontra o dela, que já era triste, mesmo por trás dos sorrisos, mas se contamina ainda mais com o desencanto da alma.