Ciclo Coiotes

 

 

"Coiotes"

Programa do Ciclo:

LE SAMOURAI (14 JUN)

INFLATABLE SEX DOLL OF THE WASTELANDS (21 JUN) 

COLLATERAL (28 JUN)

 


Texto do Ciclo 
 
 
 
“Sobre a jaula e a fuga”
por Diogo Pinto (alumnus da Escola das Artes)
 
coiote
coi •o• te
nome masculino
Mamífero carnívoro semelhante ao lobo e ao chacal
 
"Eu vi a minha mão em tudo o
que se demarca da piedade. E comovi-me."
- Jorge Melícias
 
Mais uma noite, mais um dia, mais um trabalho. Ocasionalmente, as caras que vê despertam-no da anestesia, afigurando-se como um destino onírico no qual projetou uma fuga. Por vezes, são suficientes para aguentar a repetição. Uma ou outra vez, mais raramente, a ligação não parece tão fugaz.
 
A ilusão fá-lo continuar, ignorando a máquina trituradora que, lentamente, o desumaniza. Impotente, continua.
Aos poucos, deixa de ser apenas o lavor a sua jaula. Toda a sua existência se vai dissolvendo, restando apenas o quarto austero, o covil onde o animal se refugia das intempéries. Quem perderá tempo a escutar o homem que não fala?
 
O pássaro que, admite, lhe dá algum conforto continua preso na gaiola, pois ele não tolera que tão insignificante animal tenha mais prazer que ele próprio.
 
E continua, mais um dia, outra vez o mesmo movimento, o mesmo alvo, sempre diferente, sempre a mesma tarefa, outra vez a náusea.
 
A cada noite, o pavio vai ficando cada vez mais curto.
 
Explode, num turbilhão violento e excitado. Pensa ter quebrado o ciclo, mas cedo compreende que apenas abriu outro, não muito diferente do anterior. A violência de existir tornou-se a violência de agir. Outra vez o mesmo. Desta vez, no entanto, sabe melhor. Ao menos sente-se viril, mais até do que quando sentia algo pelas caras que via. Tem, agora, algo precioso, que nunca se esquece de polir. A violência do mundo é agora a sua, e compreende-a. É-lhe mais fácil perceber o resultado da colisão de dois corpos do que a abstração confusa dos sistemas que os homens criam para si próprios. No entanto, continua a perder. Impõe a desumanização que sentia sobre aqueles com que antes via como seres, mas que agora são só mercadoria. Descartáveis como ele próprio. O mundo reage, rebatendo à sua uma força contrária. Ganha consciência. Imagina a possibilidade ser a própria violência a acabar com a violência.
 
O seu sonho entorpecido é agora um desejo libidinioso de morte, mas foi há muito castrado de proatividade. O seu livre-arbítrio está condenado às variações sobre um tema inescapável. Não chegou a decidir o seu destino, nem nunca teve essa hipótese. Percebe que não há fim possível.
 
Continua a actuar, na esperança de que alguém interrompa a performance e lhe dê o exício pelo qual anseia. Um pobre animal ajuda-o, finalmente. Às tantas, entende que, mais do que um organismo insignificante, é um ser consumido pela apatia.
 
Ergue-se e, finalmente, toma uma decisão.
 
É tempo de apanhar o primeiro comboio para fora daqui.