> 30Nov · Happiness

 

30/11/2021, 18h30 | AUDITÓRIO ILÍDIO PINHO

Happiness
de Todd Solondz 
Estados Unidos, 1998, 134'

 


Sinopse

No centro de uma família tipicamente americana, três irmãs de comportamentos distintos põem à prova valores familiares, o conceito de felicidade e discutem sua sexualidade.
 

Folha de sala

 

“Encontrando a alegria em Happiness

por Gonçalo Eugénio (argumentista)

O primeiro contacto que tive com Solondz dá-se algures no verão de 2019, quando via as suas obras para me preparar para o encontro com o mesmo num evento de cinema em que participava. O choque foi imenso e prazeroso. 

Happiness é a sua obra mais conhecida talvez porque resume a sua fórmula ao essencial, traduzida por Solondz numa frase que me disse a meio de uma conversa: “Faço filmes para me poder rir e não me matar”. A diferença entre esta obra e qualquer outra de Solondz é que existe uma total confiança por detrás do sentimento de que, mesmo no choque ou no “descarrilar”, há uma abertura para o filme se deixar mover pela alegria macabra desses momentos.

Traçando um comentário mordaz sobre as suas origens, Solondz retorna àquele tufo fértil que é o subúrbio americano, esculpindo uma superfície flácida que nos deixa espreitar para desejos e ansiedades dormentes. Solondz traça uma trama consciente do seu lado pessoal; é um filme terrível e absurdamente consciente do desejo de não se querer estar sozinho.

A ideia de se estruturar um filme à volta de três irmãs – que, por sua vez, nos relembra Tchekhov assim como Woody Allen em Hannah and Her Sisters – foi concebida para interligar as três histórias à mesma ideia. Joy (Jane Adams) mostra-se determinada a viver feliz, mas o seu amor verdadeiro ainda não apareceu. Trish (Cynthia Stevensen), casada, desespera pois Joy nunca “terá tudo na vida” como ela tem. E Helen (Lara Flynn Boyle) é uma autora best-seller que escorregou para uma vida de amargura que só pode ser aliviada com sexo kinky. Os seus pais já viram melhores dias no seu casamento: a sua mãe pondera o divórcio enquanto o pai pondera a morte, e os homens na vida das três irmãs são tão ou mais perturbados. 

Pode-se argumentar que, como Solondz o faz, “um filme como Happiness apenas pode surgir de uma sociedade com uma cultura repressiva” e, no entanto, nada no filme aparenta ir para lá do que se discute no noticiário todas as noites, ou nos tabloides virtuais. A diferença é que nos media que consumimos aparenta existir uma voz moralística, apesar de sempre ao lado de um tratamento de exploração que dá aos sujeitos de notícias CMTV um close-up com cariz de freak-show. No filme, apesar de profundamente atormentadas, as personagens não são alheias de humanidade. Em Solondz, a sua beleza consiste em existir espaço para um distanciamento irónico perfeito para que consigamos conectar com as suas profundas tristezas, mas também para nos rirmos delas.