Próxima Sessão

 

28/06/2022, 18h30 | AUDITÓRIO ILÍDIO PINHO

COLLATERAL
de Michael Mann
Estados-Unidos, 2004, 120'

 


Sinopse

 
Um taxista vê-se refém de um assassino profissional, sendo arrastado para um mundo de violência durante uma longa noite em Los Angeles.
 

Folha de sala

 

“A Ronda da Noite”

Por Vítor Ribeiro (programador e crítico de cinema)

O primeiro filme de Michael Mann, Thief (O Ladrão Profissional, 1981), estabeleceu um conjunto de coordenadas da obra do cineasta, no que se refere aos seus protagonistas e ao desenvolvimento de uma estética noturna. Na extensa sequência de abertura, vemos Frank (James Caan, um dos atores fundamentais da Nova Hollywood) a penetrar um cofre com uma potente máquina, o que distingue o vigor físico da investida e a intencionalidade da ação: aquele homem sabe exatamente o que vai encontrar naquele cofre. O filme desenvolve-se quase exclusivamente de noite, marcado por tons azuis e verdes nos espelhos de água de lugares urbanos e cercados de estradas, arranha-céus, pontes, sons de locomotivas e encontros em cafés de beira de estrada. Frank, patrão de si próprio e dos seus juízos, não confia nas instituições e lida com um círculo muito reduzido de pessoas com quem estabelece compromissos e de quem exige a mesma honestidade que impõe a si mesmo. Isolado do tempo, apreendeu na prisão uma atitude mental, um desapego perante o mundo, onde arranja espaço para apenas uma ilusão que sintetiza num papel impresso, onde montara vários recortes de fotografias, que incluem o seu melhor amigo, uma residência, uma família, um automóvel, mas também as ossadas da morte.

É difícil abordar Collateral sem pesar a figura de Tom Cruise. Foi uma fase decisiva no percurso do ator, que começara em 1999 com as participações em Eyes Wide Shot (De Olhos Bem Fechados) de Kubrick e Magnólia de Thomas Anderson; interpretações inesperadas, no início da posse do controlo artístico da obra, assessorado pela produtora Paula Wagner, que o conduziu, como ficou evidente na série de filmes Missão Impossível e no recente Top Gun: Maverick, a um estatuto de ator-autor. Cruise surgiu em Collateral envelhecido, maturado pelo cabelo e barba acinzentados, como convém aos personagens de Michael Mann, que carregam um passado tão denso quanto indefinido. O contracto de Cruise (Vincent) consiste em liquidar cinco pessoas durante uma noite em Los Angeles, missão para a qual irá coaptar o taxista Max, interpretado por Jamie Foxx, que fará um contraponto com a indiferença emocional de Vincent (que encontráramos no protagonista de Thief) e que forçará o espectador a permanentes reposicionamentos, na definição do personagem a seguir, na identificação do protagonista, algo que a presença de Cruise torna ainda mais problemático. Cruise movimenta-se como uma máquina eficaz, um exterminador implacável nas suas ações, um animal feroz que se adapta ao habitat e às circunstâncias, como um lobo que vemos a atravessar uma das avenidas da cidade. Interpretação física, então, onde se associa o controlo e a rotina das ações à disponibilidade para o improviso de uma jam session, de um músico absorto pela sonoridade do seu instrumento. Cruise, a exemplo de outros protagonistas de Michael Mann, deixará escapar um detalhe da relação disfuncional com o pai, para revelar que a sua moral é fundada em algo mais remoto que uma filiação familiar, um brio de outro tempo que se impõe na execução do seu ofício, com evidentes paralelos com o arquétipo interpretado por Alain Delon em Le Samourai (Ofício de Matar, 1967) de Jean-Pierre Melville.  São personagens que estabelecem compromissos, vínculos peculiares. Após o primeiro assassinato e perante a surpresa de Max, Vincent dir-lhe-á: We’re in this together.

Vincent comenta com Max que fica ansioso por deixar a cidade desde que chega, pois Los Angeles é um lugar desconectado: um tipo mete-se no metro e morre, viaja morto numa das carruagens durante horas e ninguém dá conta. Michael Mann enquadra muitas vezes as amplas divisões interiores voltadas para o exterior através de grandes envidraçados, uma transparência entre o interior e o exterior, mescla de espaço público e privado, que suspende a intimidade e dissolve os personagens na cidade e nos seus vícios. A supressão da margem entre as ruas da cidade e os compartimentos espelha e estende os comportamentos dos personagens, com inúmeras luzes a pontuarem a noite para dar a ver um submundo que sobrevive aos dias, um mundo oculto, mas sempre aceso, sem passado e sem futuro, um presente concentrado. Michael Mann rodou Collateral em vídeo de alta definição, nos anos derradeiros do analógico e da película como suporte de exibição, na elaboração de uma estética digital e noturna que Thief já esboçara. Com uma câmara móvel, mas controlada e precisa como o protagonista, a imagem é uma paleta digital, adensada numa melancolia latente, de tonalidades azuis, verdes e ocasionais vermelhos dissolvidos na noite e nas luzes da cidade, com planos picados onde os arranha-céus são como gigantes que esmagam o individuo numa cidade que excede as medidas dos ecrãs. Dissolução e solidão, duas palavras-chave, num filme deste tempo, de um milénio que despontava e com ele a aleatoriedade do espaço digital.

A construção digital da imagem, progressivamente experimentalista e abstrata, ficou ainda mais intencional no filme seguinte de Michael Mann: Miami Vice (2006), que tomou os personagens da série solarenga dos anos 80 que Mann produzira. Na prevalência da noite, por vezes numa quase total escuridão, metáfora para a incerteza das motivações dos personagens, o filme galga a cidade e transporta-se em elipses num território difuso e global, onde as estradas são como circuitos digitais, vasos comunicantes de informação movidos na aceleração de automóveis, lanchas, helicópteros e aviões. A tecnologia ascende à categoria de personagem, com a presença de um cerco de monitores, câmaras de vigilância e o intuir do poder conferido a redes e a satélites. “Sei que o trabalho de infiltrado requer uma atitude fora da lei”, atira um agente do FBI ao protagonista Sonny, interpretado por Colin Farrell. A dupla de protagonistas, em especial Sonny, comunica com a mesma habilidade com o crime e com a lei: agentes duplos, mas robustos eticamente, feitos da mesma herança de Vincent, de Frank e de outros personagens do cineasta.