Cineclube EA · Carta Branca a Diogo Costa Amarante

23.02.2021 18:30

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23.02.2021 18:30 Cineclube EA · Carta Branca a Diogo Costa Amarante Link: https:///pt/central-eventos/cineclube-ea-carta-branca-diogo-costa-amarante

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Foto: © Heinrich Völkel

Cineclube EA
Carta Branca Diogo Costa Amarante
23 FEV 2021 · 18h30 · ONLINE
Site Cineclube
 
Para assinalar o reinício das sessões regulares, o Cineclube da Escola das Artes convidou o realizador e professor Diogo Costa Amarante para programar uma carta branca. Refletindo sobre o estado de confinamento e o modo de existência online e mediado pelas tecnologias digitais, Amarante escolheu quatro curtas metragens que poderemos ver numa sessão única e exclusiva, que decorrerá online, pelas 18:30, do dia 23 de fevereiro, a partir da  Plataforma Kosmi.
 
 
 
Folha de Sala (web) | Sinopses dos filmes | Folha de Sala (.pdf) [brevemente]

Programa da sessão
1 -VINIL VERDE de KLEBER MENDONÇA FILHO
2 - AMERICAN REFLEXXX de ALLI COATES
3 - THE CENTRIFUGE BRAIN PROJECT de TILL NOWAK
4 - FORENSICKNESS de CHLOÉ GALIBERT-LAINÉ

 

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Folha de sala

"http://off_line.com"
por Diogo Costa Amarante

Numa época de distanciamento social, em que cada vez que saímos de casa colocamos uma máscara que nos cobre parcialmente o rosto, em que o encontro com o outro é sentido como perigoso e em que existimos mais online do que offline, que realidade nos espera no futuro? Aproveitaremos esta suspensão do tempo para nos repensarmos nas relações, dentro e fora de casa? Como será o reencontro com o outro? De maneiras diferentes, declinando estas e outras perguntas numa interrogação das tensões entre o individual e o social, os quatro filmes que aqui se põe em diálogo surpreendem em flagrante – e, como tal, questionam – as relações familiares, o pavor da alteridade e as representações da realidade: três formas de fuga. 

No filme Vinil Verde, de Kleber Mendonça Filho, uma menina emancipada ousa desafiar a autoridade da mãe para seguir o seu desejo de ouvir o disquinho verde. A cada transgressão, escolhendo o caminho do pensamento próprio, enfrenta – aparentemente sem medo e sem culpa – a proibição imposta pela mãe que, ao ser constantemente posta em causa, vai simbolicamente sendo desmembrada. Neste caso, tratando-se de uma ficção com contornos alegóricos, somos surpreendidos pela construção subversiva onde é o corpo que exerce a autoridade opressora que recebe as represálias da desobediência. A menina é, por sua vez, mergulhada numa estética de terror, por ser anormalmente autodeterminada. Não deixa de ser inquietante que a parte mais fraca desta relação consiga manter-se vertical, totalmente imune à chantagem com a qual se pretende fazer-lhe cumprir uma lei, imposta sem razão. Mas, conclui o narrador num tom pessimista, essa mesma menina surpreendentemente transgressora, teria mais tarde uma vida em que “ela própria se apaixonou, teve filhos, e a eles deu-lhes todo o seu amor, e todos os seus medos e as mais profundas aflições”.

Se esta parábola psicanalítica nos fala da repressão do desejo no foro do doméstico e do familiar, num jogo de oposições de um para um, no filme American Reflexxx, de Alli Coates, a questão passa para a esfera pública, para o âmbito da repressão exercida pelos coletivos que operam numa lógica identitária grupal, onde os mandamentos da mãe imaginária nunca foram postos em causa. Recorrendo ao dispositivo de uma performance filmada, uma dupla de mulheres – uma a gravar, a outra a deambular sozinha pela multidão – regista o comportamento do corpo coletivo quando estruturado e mobilizado por princípios e ideias de identidades normais. Neste caso, ao identificar o corpo, a roupa e a máscara que a performer usa como elementos estranhos, não normais, o grupo rapidamente se organiza numa espécie de enxame persecutório que pressiona o corpo classificado como aberrante a recuar na sua afronta, a abdicar imediatamente da ousadia da autodeterminação. Mas, tal como a menina do disquinho verde, não obstante a ameaça, a performer mantém o seu comportamento, ignorando as ameaças, por vezes até dançando. Contudo, talvez por tratar-se neste filme da realidade e não de uma construção alegórica, não é quem reprime que se desintegra, mas antes o mais forte, que dá imediatamente início ao ritual repressor. Primeiro, objetualizando o corpo da transgressora, criando assim um regime de exceção ao dever de empatia, suspendendo a culpa, para, finalmente, num clímax catártico que todos parecem querer ver, ou filmar (não por acaso seguem de telemóvel em riste, o equivalente ao imaginário das tochas num cenário medieval), poder concretizar, disferir o golpe talionesco que, transformado em imagem de entretenimento, numa excitação demoníaca, devolve ao grupo um desenlace exemplar (e espetacular) através do qual se repõe a justiça, livrando-os, portanto, do mal. 

E se há quem defenda a expressão artística como a melhor forma de exteriorização das pulsões destrutivas, quer em relação a si próprio, quer em relação ao outro, entramos no universo do hiperbólico parque de diversões concebido pelo Dr. Laslowicz no filme The centrifugue brain Project, de Till Nowak. Este engenheiro sonhador, percebendo a razão pela qual tantos são seduzidos a canalizar as suas angústias e medos numa excitação infantil de culpabilização do outro, propõe-nos um cardápio de máquinas, tão extravagantes quanto justas para lidar com as forças que estão em causa. Com estas máquinas, resolve, por isso, um problema fundamental: como oferecer escapismo, alienação e transe, sem que isso tenha de ser alcançado através da centrifugação do outro? 

Pela mesma via que, no seu processo de pesquisa, o Dr. Laslowicz conclui que a gravidade é um erro porque nos traz sempre de volta à terra – donde, toda a vida ser, na verdade, um esforço para escapar da realidade – entramos no território do último filme, Forensickness, de Chloé Galibert-Lainé. Também aqui convidados a seguir numa viagem imprevisível, neste caso, recorrendo a uma maquinaria narrativa que não mascára, mas celebra as contradições. A grande tese do filme reproduz o modelo argumentativo que identifica como problemático e, desembaraçando-se de dogmas quanto ao que o cinema é ou pode ser, cria uma vertiginosa forma escheriana, uma espiral que nos faz girar pela mecânica das ideias e do pensamento. Assim se complexifica a intuição manifestada pelo engenheiro do filme anterior. Se a vida é um esforço para escapar à realidade, que realidade é essa de que se pretende fugir? Estaremos a falar das narrativas que se projetam sobre as imagens do real? Mas quem imita quem? É a realidade que imita a ficção, ou a ficção que imita a realidade ficcionada? E o que resulta desse loop? Estaremos reduzidos a uma existência dentro de uma realidade representada? E o que decorre desta nova realidade? Uma mundividência constituída por representações estereotipadas, ideologicamente validadas, quiçá um caminho de não retorno, se nos ativermos à própria estrutura lógica do pensamento? 

 
Diogo Costa Amarante

Sinopses

1 - VINIL VERDE de KLEBER MENDONÇA FILHO
Brasil, 2004, 16’
Um dia a mãe oferece à filha uma caixa com discos antigos, disquinhos coloridos de músicas infantis. A filha poderia ouvir todos os disquinhos, exceto o verde. Desobedecendo à ordem da mãe, a filha ouve o disquinho verde, desencadeando uma série de acontecimentos estranhos.

 
2 - AMERICAN REFLEXXX de ALLI COATES
EUA, 2015, 14’
Alli Coates (cineasta) e Signer Pierce (artista-performer) reúnem-se em Myrtle Beach, com o objetivo de criar uma experiência social. No entanto, nada os prepara para a experiência de horror que se sucederia. Os acontecimentos que se desenrolam, revelam camadas escondidas e profundas da sociedade americana.
 
3 - THE CENTRIFUGE BRAIN PROJECT de TILL NOWAK
Alemanha, 2011, 6’ 36’’
Desde a década de 70 que vários cientistas procuraram conduzir experimentos no sentido de estudar a relação entre humanos e parques temáticos, procurando perceber os efeitos no cérebro em diversas e bizarras construções
para divertimento. De forma algo surpreendente, a experiência vivida nestas estruturas parecia afetar positivamente o cérebro, abrindo novos caminhos para a libertação gravitacional.
 
4 - FORENSICKNESS de CHLOÉ GALIBERT-LAINÉ
França, 2020, 49’
A partir do filme de Chris Kennedy, “Watching the Detectives”, uma investigadora mergulha no arquivo media produzido depois dos ataques de Boston, estudando as dinâmicas geradas pelos internautas em comunidades virtuais, pequenos centros de debate, especulação e análise.