Cinema como Justiça · Cineclube EA

Contactos

Cineclube 2021-22

Equipa do Cineclube EA 2021/22
Benjamim Gomes
Diogo Pinto
Eva Direito
Joana Carreira
João Pinto
Leonardo Polita
Luísa Alegre
Maria Miguel
Miguel Mesquita
Miguel Ribeiro

com o apoio de
Carlos Natálio

Mais Informações

 

PROGRAMA

09 NOV 2021, 18h30 | AUDITÓRIO ILÍDIO PINHO
Bamako
de Abderrahmane Sissako 
Mali / Estados Unidos da América / França, 2006, 115'

15 NOV 2021, 18h30 | AUDITÓRIO ILÍDIO PINHO
Monsieur Verdoux
de Charles Chaplin 
Portugal, 1947, 124'

23 NOV 2021, 18h30 | AUDITÓRIO ILÍDIO PINHO
Der Tod des Empedokles oder: Wenn dann der Erde Grün von neuem Euch erglänzt
de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub 
República Federal da Alemanha / França, 1987, 132'

 

 

09 NOV 2021 - 23 NOV 2021
Programação de Joana Carreira

Quando a Terra voltar a brilhar verde para ti

Para além da mera enunciação ou representação de Justiça num filme, como é que o Cinema enforma o próprio conceito de justo num determinado contexto social e cultural, sobretudo, como pode servir de meio de concretização da Justiça? 

Entre as várias acepções do conceito de Justiça, aquela que mais se coaduna com o âmbito da produção cinematográfica será a de um fenómeno que provém e depende do diálogo, implicando, assim, a exteriorização e a relação com o outro, ou seja, é intrínseca a ideia de comunicação - da qual depende também o Cinema. Contudo, a ideia de justo é largamente influenciada pelo paradigma cultural em que se encontra inserida sendo, deste modo, a Língua, a Literatura, a Filosofia, a Ciência, a Arte e o Cinema, “fontes” que alimentam e densificam essa mesma concepção. Cada área de conhecimento constitui um património estrutural para o desenvolvimento de princípios e valores e, consequentemente, para o nosso sentimento pessoal e coletivo de Justiça. 

Institucionalmente, a Justiça tem que estar “vendada”, atendendo a provas, regendo-se por leis e normas, resultando em consequências directas no funcionamento da sociedade - a atribuição de uma punição. No Cinema, por sua vez, o diálogo que previamente se mencionou concretiza-se ao retirar a venda dos olhos, ao revelar uma visão pessoal de um realizador, em que não há consequências legais. A consequência, não menos importante, é o impacto no espectador, o influir no pensar e sentir das pessoas. 

Este processo pode até parecer impotente nos efeitos práticos sociais que produz – não há um castigo imediato. Todavia, tem-se em mente o pensamento de Platão e Aristóteles de que “[…] toda a arte tem uma natureza moral em virtude de afectar o modo como vemos e nos relacionamos com o mundo” (Branco, 2016, p. 150). Assim, um filme assume o papel de contributo ideológico para o despoletar da consciência humana. A médio prazo, neste caminho, uma obra constitui sempre um registo, uma memória, um firmar de algo por um autor, o que, só por existir, comporta uma tomada de posição política e moral. 

Torna-se pertinente reflectir sobre a perspetiva de Pedro Costa nesta matéria, com quem partilho o mesmo entendimento: reconhecer no Cinema a responsabilidade de se tornar um veículo de Justiça. Em entrevista, Costa, a propósito de Fritz Lang, refere: “(…) os seus filmes sempre nos lembraram que o Cinema tem muito a ver com Justiça. Os nossos filmes deveriam vingar.” (Smith, 2015). Este “vingar” não é mais do que trazer Justiça a algo que não a teve ou tem, como se um filme nos desse a oportunidade de agir (vingar) ao retratar, reescrever ou idealizar (quer como realizador quer como espectador) determinado assunto.

Costa afirma ainda: 

“A Justiça está muito próxima do Cinema. Muitos dos melhores filmes vingam algo, não vingam? A maioria das histórias da Humanidade – quero dizer, as histórias das classes baixas – ou foram mal contadas ou não foram contadas de todo, e é então que o Cinema tem que intervir. É o trabalho de pessoas como Chaplin, Renoir, Straub e Stroheim vingar a injustiça. No tempo que passamos com eles durante os seus filmes, não se limitam a representar a vingança. Eles fazem-na. Para mim, a função primária do cinema é fazer-nos sentir que algo não está certo. Estou a citar Buñuel e a pensar em Ozu, que foi um homem que nunca baixou a sua guarda. Em todos os frames de todos os seus filmes pode ver-se esse desassossego. Está em pequenas coisas. Mal é visível. Pode ser apenas o tremor de uma mão a segurar uma maçã. Pode ser o espaço vazio deixado pela partida de alguém amado.  Filmes que perdem de vista a injustiça e a fragilidade são inúteis.” (Cutler, 2015) 

Na sua relação com o conceito de Justiça, o Cinema tem que ter uma função interventiva clara, feita por via do recontar das “histórias da Humanidade” que foram “mal contadas” e do contar inédito ou desvelar das que “não foram contadas de todo”: assim se vinga a injustiça. Extraordinariamente, como alguns realizadores conseguiram e conseguem, um filme é tido como mais do que mera representação, encarado como ação, um fazer, e um fazer ver: é, em si, uma ação nova, interventiva. Daqui partimos para este ciclo. 

Com Bamako, ao colocar o povo do Mali (sob a forma de “parte civil”) contra o Banco Mundial e o FMI, num processo de acusação imaginado, passado num tribunal da capital maliana, Abderrahmane Sissako prova que se é quase impossível, no nosso mundo, ser-se bem-sucedido ao processar estas duas instituições. Então, o Cinema é lugar para isto mesmo, para fazer a Justiça que não é feita fora dos filmes. O FMI e o Banco Mundial são acusados de exploração do Mali e de tantos outros países Africanos, de disseminarem uma globalização perversa que só a poucos beneficia, de serem neocolonialistas, de perceberem somente a linguagem do dinheiro. Este será talvez o mais paradigmático dos filmes do ciclo pois serve-se de uma utopia com o propósito de […] forçar os limites da realidade, de alargar o campo do possível, através da invenção de um lugar (ou não-lugar) que é um lugar de fala, contra um silenciamento sistemático. […] Ora, Bamako é um filme sobre a fala – o ato e o lugar de fala. “  ‘Fala-se muito da África mas ela fala muito pouco de si mesma’, afirma Sissako.” (César, 2013, p. 584). Aqui, cumprir a Justiça assume a forma de dar a palavra a quem, regularmente, a vê negada e de submeter a julgamento aqueles que a tal nunca são sujeitos. É a vingança dos silenciados, que finalmente têm um espaço e tempo de expressão. 

Monsieur Verdoux acompanha a história de Henri Verdoux que, após perder o emprego como funcionário de um banco, toma como atividade a sedução de mulheres abastadas, casando-se com elas e matando-as depois para lucrar com as heranças - tudo para sustentar a mulher incapacitada e o filho. Acaba por ser detido, julgado e condenado à morte. São as declarações de Verdoux, primeiro, aquando do seu julgamento, e segundo, em comentário posterior dirigido a um jornalista, que considero pertinentes: 

“(…) As for being a mass killer… does not the world encourage it? Is it not building weapons of destruction for the sole purpose of mass killing? Has it not blown unsuspecting women and children to pieces, and done it very scientifically? As a mass killer, I am an amateur by comparison… However, I have no desire to lose my temper, because very shortly I shall lose my head. Nevertheless, upon leaving this spark of earthly existence, I have this to say… I shall see you all very soon.” (Chaplin, p. 209) 

Henri Verdoux foi submetido à “Justiça” e condenado como criminoso que era, mas não é também justo o que diz? 

Retomo as palavras de Pedro Costa:

“O acto de vingança por algo que não está bem… Chaplin é uma pessoa que se vingou de muita coisa… do seu fim, do seu passado, da Humanidade, vinga-se de massacres sem matar ninguém, sem exercer violência, sem violar.” (Oliveira, 2008) 

Monsieur Verdoux é a demonstração da perversão do sistema de “Justiça” que rege a sociedade, personificada numa voz singular, um manifesto, uma vingança. 

Por fim, A Morte de Empédocles, de Straub e Huillet, adaptado da tragédia inacabada de Hölderlin, traz-nos o pensamento do filósofo pré-socrático e legislador grego Empédocles e das circunstâncias da sua morte. Ao recusar compactuar com a lei corrupta fixada, é banido da cidade de Agrigento. Decide suicidar-se, mas não sem antes profetizar a sua "utopia comunista". Empédocles pode ser visto como um dissidente, como aliás são Straub e Huillet, mas esta dissidência dá-se pela recusa em abandonar a sua convicção inabalável de Justiça. Antes de morrer deixa a sua palavra, talvez um dia o mundo seja justo, “quando a Terra voltará a brilhar verde para ti”. 

1 Branco, S,D. (2016). “O Cinema como Ética”. In Atas do V Encontro Anual da AIM. Ed. Sofia Sampaio, Filipe Reis e Gonçalo Mota, 145-155. Lisboa: AIM. 

2 Cutler, A. (2015). “Horse Money: An Interview with Pedro Costa”. In Cineaste Magazine.

3 Chaplin, C. (s.d.). Monsieur Verdoux . (Guião).

4 Oliveira, A. B. (2008) “ Rooms of Colossal Bones Pedro Costa's Trilogy”. In Mute.

5 Smith, M.G. (2015) “Our Films Should Avenge: An Interview with Pedro Costa”. In White City Cinema.

Contactos

Cineclube 2021-22

Equipa do Cineclube EA 2021/22
Benjamim Gomes
Diogo Pinto
Eva Direito
Joana Carreira
João Pinto
Leonardo Polita
Luísa Alegre
Maria Miguel
Miguel Mesquita
Miguel Ribeiro

com o apoio de
Carlos Natálio