29 NOV 2022- 12 DEZ 2022, 18:30 | AUDITÓRIO ILÍDIO PINHO
CICLO VOX
Ciclo programado pelos alunos de Som e Imagem, Maria Miguel e Miguel Ribeiro. Um programa de duas longas metragens e uma sessão de curtas destinadas a refletir sobre os usos, destinos, configurações e reverberações da voz no cinema.
Reverberações traumáticas
por Miguel Ribeiro & Maria Miguel Pratas
Como Slavoj Žižek aponta no seu documentário The Pervert 's Guide to Cinema (2006), Charlie Chaplin estava completamente ciente da dimensão traumática e impactante da voz humana, como um símbolo de perturbação e medo. Em The Great Dictator de 1940, o realizador americano também protagoniza as duas personagens principais, o pobre barbeiro judeu - símbolo do já “ultrapassado” cinema mudo -, como também o ditador Hynkel, uma versão caricatural de Hitler. O que se revela realmente opressor e assustador nesta longa-metragem é a presença fantasmagórica da voz da personagem do ditador. Em certos momentos do filme, apenas temos uma real noção do verdadeiro poder ditatorial e imponente da personagem de Hynkel, quando a sua voz aparece de forma abrupta e descontextualizada nos altifalantes das ruas das simples vilas, em momentos completamente normais e rotineiros da vida do barbeiro judeu.
De uma maneira clara, a voz tem um papel proeminente, crucial e fatal no desenvolvimento e na existência humana. Apesar de, em certos momentos a voz ser vista como algo ameaçador e imponente, em outros contextos, a voz acaba por ganhar uma configuração de objeto de puridade, ou melhor dizendo, uma faceta limpa e livre de pecado que o corpo carrega.
Contudo, o que confere estas características à voz como algo fatal e traumático, é a sua capacidade de se prolongar e sobreviver para além da própria existência física, ou seja, a sua facilidade em existir sem um corpo. É relativamente simples analisar e ver este fenómeno em vários momentos da história, já que a ideia de voz sem corpo é algo extremamente recorrente ao longo da evolução antropológica de várias culturas. Para além das referências óbvias, relacionadas com a cultura judaico-cristã da sarça ardente no livro do Êxodo, tal como na mitologia grega no mito da Eco, mito das sereias, etc.
E é exatamente esse fenómeno que este ciclo vai utilizar como foco de estudo, já que, existem inúmeros exemplos da presença da voz como um objeto livre e transcendente no cinema. As reverberações traumáticas da voz e como é que estas são percebidas e imaginadas não são algo difícil de imaginar; o cinema enquanto arte, também se esculpe como algo que claramente evoluiu da ausência marcada do som, para passar a ser uma forma representação de ambos.
No primeiro filme deste ciclo, Das Testament des Dr. Mabuse (1933) de Fritz Lang, temos a sequela do seu filme de 1922, ainda uma longa-metragem da era do cinema mudo. De uma forma muito marcada, os filmes que foram criados na transição do cinema mudo para o cinema já com som, normalmente carregam uma vasta simbologia e referências, em relação ao poder da voz e do som, esta longa-metragem de Fritz Lang, é um claro exemplo disso.
Neste filme de 1933, temos o regresso da personagem que Fritz Lang tinha explorado na década anterior, contudo, na versão dos anos 30, a personagem de Mabuse nunca é vista corporalmente pelos seus lacaios, este comunica os seus planos e dá ordens com os seus gangues através de uma cortina, sem nunca se revelar fisicamente perante os seus seguidores. Curiosamente, esta ideia da cortina, como algo que de certa forma, esconde dos olhos a imundice do corpo, em contraste à pureza e poder da voz, não é algo novo. Já Pitágoras, nas suas aulas, separava os seus alunos em dois grupos, os matemáticos e os acusmáticos, os acusmáticos eram para Pitágoras, os seus discípulos com mais sensibilidade e mais capazes, consequentemente, os acusmáticos assistiam às aulas do mestre também através de uma cortina, para que o discurso e conhecimento do professor nunca fosse poluído pela presença corporal. Para além disso, o próprio Mabuse, quando se revela aos protagonistas, não se revela com o seu corpo, mas sim com a sua voz a possuir uma outra pessoa, como um boneco ventríloquo.
Em Sayat Nova (1969) de Sergei Parajanov - a cinebiografia surreal do poeta arménio Sayat Nova - é contada através de amálgamas não narrativas da imagem, com enfoque na visão do poeta. Frank Williams enuncia o filme de Parajanov como uma celebração da sobrevivência da cultura arménia em face da opressão e perseguição: a mancha de sumo vermelho-sangue de uma romã que forma as fronteiras do antigo Reino da Arménia. Aclamado por Mikhail Vartanov, o filme é um tratamento poético da vida do trovador ashug do século XVIII. Com quadros ativos que retratam a vida do poeta em oito capítulos - Infância, Juventude, Corte do Príncipe, O Mosteiro, O Sonho, A Velhice, O Anjo da Morte e A Morte - em detrimento da dimensão literal, o filme não abandona a qualidade subtil e pensativa do filme mudo. Os escassos diálogos oferecem um lugar privilegiado à palavra, transformando-se no ápice da longa-metragem, numa ciência que usa o silêncio como chave para descobrir o verdadeiro lugar do canto e da voz.
Para findar o ciclo, será proposta uma sessão de curtas-metragens, curtas essas, que terão o objetivo de aglomerar e ligar as várias perspetivas da voz abordadas durante o ciclo. Por um lado, a desconexão entre corpo e voz, o prolongar da voz em relação ao físico, força e resistência de um povo, etc.
Esta sessão será uma viagem que terá a sua partida numa seleção de curtas que jogaram com a dicotomia entre o poema e a imagem, refletindo, por exemplo, na cultura da Hungria e na guerra civil espanhola. Numa fase final da seleção, haveria um regresso parcial à primeira sessão do ciclo, isto é, um aprofundar na ideia da incoerência entre a voz e o corpo. Esta secção começaria através de uma exploração computacional de Shishi Yamazaki, passando pelos devaneios de Schroeter pela cantora Maria Callas, acabando depois de forma catártica com The Space Between the Teeth de Bill Viola, uma curta-metragem experimental que se baseia na presença acústica do grito humano, grito este que sonha com uma libertação e com a destruição imediata do corpo.