Aurora

Yohei Yamakado

Aurora · Exposição de Yohei Yamakado
22 SET – 21 OUT 2022
Sala MoCap


Curadoria: João Pedro Amorim

Yohei Yamakado esteve em residência artística na Escola das Artes no final de 2019, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, período em que preparou um projeto fílmico a partir da leitura de O Marinheiro, de Fernando Pessoa. Desde 2021, tem vindo a realizar o filme com o mesmo título com o apoio do programa Criatório, da Câmara Municipal do Porto.

Em Aurora, Yohei Yamakado apresenta uma composição de obras visuais e sonoras que o acompanharam ou que surgiram durante a produção do filme. O filme O Marinheiro (2022) será projetado na inauguração da exposição.

Visitável de terça a sexta-feira, das 14h às 19h, na Sala MoCap da Escola das Artes.

Horários de abertura de Cinema
22 setembro – Inauguração
30 de setembro – 14H–19H
7 de outubro – 14H–19H
11 de outubro – 14H–19H
17 de outubro – 17H30–19H
 




O quarto estava apagado. Nessa noite em que todas as vacas não são negras, mobilada com nada mais que cadeiras vermelhas, um silêncio sussurrante ao longe, intermitências da memória que se esquece, diante sobre a cena, a sombra de duas cortinas suspensas, tingidas de bordô, enquadradas por alguns motivos em ouro fino, portanto ordinários e quase insignificantes, por assim dizer, à sombra de Veneza, mostrava-se fragilmente, cintilava insensivelmente uma superfície retangular branca ligeiramente prateada.

De súbito, alguns ruídos de passos. Um infante sobe as escadas, atravessa o quarto, com uma flor na mão, delicadamente, parece, ou com a delicadeza que nós temos quando cuidamos de um recém-nascido, ou de um recém ainda-não-nascido, tal como uma bobina de película ainda não revelada (sobretudo não se deve imitar o príncipe ou o idiota « Ah, zut ! »), como se ela fosse prova da sua passagem, como se ela fosse o seu bilhete de entrada ou de saída. Ele sobe mais e mais, sorrindo, respirando, e murmurando melodiosamente, numa voz bastante singular, a saber tremulante : « Além de uma vasta aurora Para que seu voo revenha verso Tua pequena mão que se ignora Marquei esta asa de um verso ». Chegando lá acima, finalmente, ele pára diante da porta, vira-se indiferentemente, depois gritou muito alegremente, gentilmente — foi um grito, certamente, mas não aquele grito que se assemelha a um ajuste de contas, de todo, mas antes aquele que nós conhecemos simples, simplesmente muito gentil, mesmo muito doce, lançado talvez de jogos ternos, dos quais, a propósito, não conhecemos a regra —, com um sorriso juvenil, modesto, um pouco faraónico : « Cuidado, tu ! Margem de indefinido ! »

Agora reencontra-se o silêncio, sussurrante. E deste silêncio sussurrante que retorna, sempre longínquo, que parece durar muito, muito tempo, ao ponto que o tempo parecia misturar-se com o espaço, neste quarto mergulhado em negro, pouco a pouco surgiam vozes, não narradoras mas narrativas ; esse tipo de vozes neutras que dizem a obra a partir desse lugar sem lugar onde a obra se cala. E lá, do fundo dessa superfície retangular branca ligeiramente prateada, suspensa diante sobre a cena entre as duas cortinas burocráticas, que permanece calma, silenciosa, modesta, mas ao mesmo tempo de aparência inútil, indiferente, despreocupada, de lá, desta superfície retangular branca ligeiramente prateada, vinham essas vozes, faziam-se ouvir essas vozes, sem asperezas, sem nomes, como se elas mesmas, como se as suas matérias — as palavras, as respirações, e os seus interstícios — estivessem há muito enterradas, enterradas para sempre.

*

— Senhora Condessa (não consigo lembrá-la sem essa velha denominação) contou-me uma história parecida com essa aí : « Quando me encontro aqui, enquanto permaneço assim, eu posso ver o mar ; e isso alegra-me muito. Quanto àquilo que me agrada durante a jornada, vejamos, é talvez o momento em que vejo o sol poente por trás da floresta de palmeiras além. » Mais, quando ela o disse, nenhuma sombra de tristeza nenhuma compleição de fadiga se manifestavam sobre a figura da Senhora Condessa. Ou melhor, acreditei ver como no tempo passado alguma coisa de florescente até. A Senhora Condessa passava o seu tempo num quarto puramente branco ainda que um pouco sombroso, alongada sobre uma cadeira em glicina durante a jornada, fazendo tricô, fazendo leitura, alimentando um pássaro de uma raça tropical estranha, ou de tempos a tempos propondo-me um copo de licor ocidental. À refeição vinha o Senhor seu marido. Durante a longa viagem no Sul, não tive a sorte de reencontrar uma só vez uma tão admirável cozinha como aquela, somente nesse momento.

— Quando regressei a Tóquio, queria dirigir-me a um café. Café toquioita, se existir, será para mim esse café, numa rua secundária em Ginza, onde se reencontram regularmente, a saber em todas as noites de verão, até à meia-noite, S. Nagai Kafu e S. Kojiro Soyo, evitando assim a mediocridade feroz da modernidade atualmente definitiva — foi bem depois do sismo de Kanto, foram desfiguradas as paisagens, enterraram-se a maioria dos originários (S. Tanizaki Junichiro instalou-se em Kansai etc.), e a cidade que desde a sua infância se via já sobrepovoada de provinciais tornou-se ainda mais, preenchida desta vez de novos provinciais e de campestres (atentai, isso não foi o fim) —, sentados no terraço minúsculo e provisório, mobilado com nada mais que duas cadeiras, silêncio sussurrante longínquo, intermitências da memória que se esquece, à sombra de um gingko verdejante, fresco, degustando o café ainda bem quente (S. Nagai achava o café frio, muito na moda, muito apreciado por essa gente famosa, absurdo, ou como um dos sintomas da absurdidade contemporânea, já que para se deleitar da natureza faz falta que ela seja respeita, até mesmo no plano sensacional, faz falta que esteja morno). Esse sabor estava ainda mais longínquo, ele era de um país muito longínquo perto da América do Sul. E o café chamava-se, creio, Mansa-tei. Ele desapareceu um pouco depois.

O nome do S. Nagai Kafu aparece por vezes, ao menos tanto que o do S. Tanizaki Junichiro, no diário pessoal de um realizador toquioita, empregado pela companhia de Shochiku, provavelmente o mais lubitschiano de todos os tempos de toda a indústria cinematográfica do seu país, então muito vivaz, que existia e que desapareceu. Ele, o autor, entre outros filmes, de Uma Mulher de Tóquio por exemplo, um filme eminentemente noir, comovente, avassalador até, num décor sem nacionalidade muito eclético se não hoolywoodiano, onde se viam alguns planos viajantes muito belos, era como a maioria dos seus colegas de então, um leitor ardente, um grande amador da literatura. Ele admirava a obra desses dois homens de letras citados acima, notavelmente o diário do primeiro, intitulado Danchotei-Nichijo, assim como aquela do S. Shiga Naoya e aquela do S. Satomi Ton, dos quais os nomes aparecem ainda mais vezes no seu próprio diário. No seu diário, lêem-se notas, comentários muito frequentemente sucintos sobre o quotidiano (em geral mais e mais concisos com o correr dos anos) ; sobre o que ele vê, ouve e encontra ; sobre o que ele come e bebe ; mas também sobre os filmes que ele vê e ouve (de tempos a tempos) ; sobre a preparação dos seus filmes nomeadamente a escritura de guião (bem vagamente) ; assim como alguns háïkus (bastante frequentes no princípio, nos seus verdes anos : « Ah eu, romântico! » etc., quase desaparecendo no fim). Excecionais são aqueles que foram escritos durante a sua mobilização na China central ; desde logo, eles são excecionais simplesmente pela sua extensão, mas sobretudo pela presença do narrador, que se mostra talvez de forma diferente. Lá parece ocupar-se de linhas sem desvio, por vezes sem reservas, a saber imiscuir-se, exprimir-se, visivelmente afetado e perturbado, até mesmo explicitamente emocional. Desde logo, isso parece com efeito bastante surpreendente por aquilo que são em si mesmas essas linhas, mas também por contraste com outras circunstâncias presentes no diário ; como raramente era o caso nas páginas anteriores, das quais a tonalidade global se mostrava mais ligeira e ociosa, bem como raramente será o caso naquelas posteriores, mais neutras e quase factuais por momentos. Mas então o que aconteceu ?

Terça-feira 4 de abril 1936

Bom tempo, apesar das rajadas de vento. A tropa partiu para requisitar porcos e legumes. Tomei banho de manhã. Distribuímos « yôkan » entre nós. Era muito bom com chá fino. Ontem troquei, com o comandante da tropa, arroz torrado « Kikunoya », incenso de chá de cerejeira por Ruby Queen. Esse tabaco, ainda que húmido, era bem-vindo. Encontrei uma pequena mesa para escrever as minhas cartas a Tóquio. No 6, há hipóteses que o carteiro parta para Jiujiang. Fui testemunha de uma cena desconcertante na estrada que vai de Anyi a Fengxin. Era fora da travessia de Jingan, num cruzamento de três caminhos onde jaziam amontoados de cadáveres de rebeldes e de indígenas. Perto de um deles, um bebé, que devia apenas ter saído do ventre da sua mãe, jogava com um saco de pão seco. O sangue tinha esvaido das suas pálpebras e coagulado no queixo ; a sua face parecia serena, tanto ele teve de chorar. O homem vestido de azul, ao seu lado, parecia ser o seu pai. A cena era tão insuportável que antes que ele recomeçasse a chorar, apressei o passo. Carregávamos sobre o inimigo : era impossível ocupar-me dele. Para evitar o obstáculo, a coluna de quatro dividiu-se em dois e o pequeno ser sem defesa continuou a jogar, no meio dessas grossas botas com caneleiras que desfilavam à direita e à esquerda, e que o poderiam converter em polpa. Com o cenário de campos de colza, qual imagem de cinema, nós tínhamos ali ! Uma imagem demasiado cinematográfica, pecando por excesso, como aquela do pai aleijado e da sua filha em Aos Corações do Mundo de Griffith, mas aqui não havia mise en scène, era a atroz realidade ! Uma vez na cidade, as requisições tinham começado ; em algumas horas apenas, os soldados conseguiram arranjar saké, doces, tabaco, bolos. Sem dúvida que eles devem ter olfato para isso ! Habituados como estão agora, eles têm a técnica. « Assim que chegamos a uma vila, iniciou-me um deles, é necessário ir ao lugar de onde se retira a água ; lá, é certo que se encontram coisas de valor escondidas um pouco mais longe no leito do riacho. »

*

— O facto é que não podia ressentir-me dele e renunciar à sua companhia, e que por outro lado não via o meio de o ganhar ; pois sabia que ele era mais completamente invulnerável ao dinheiro que Ajax ao ferro, e a única isca pela qual esperava apanhá-lo não tinha conseguido segurá-lo. Por isso fiquei embaraçado e fui, servente deste homem, como nada jamais foi a alguém.

Quando veio a expedição : tomámos parte os dois e demos por nós a comer juntos. Desde logo nos quadros da guerra, ele mostrou-se superior não apenas a mim, mas ainda a todos os outros. Por exemplo, quando estávamos cortados dos nossos restabelecimentos, como acontece na guerra, e reduzidos ao jejum, os outros não eram nada ao lado dele para suportar as privações. Por outro lado, se fazemos um banquete, ele era homem para gozar melhor que ninguém, e, se era obrigado a beber, embora não bebesse de livre vontade, ele estava certo sobre todos, e, o que era mais espantoso, é que nunca ninguém o viu ébrio : tereis a prova de seguida, penso eu. E eis o que tinha a dizer sobre a sua resistência:

« Mas o que fez e suportou esse valente. »

Ele pôs-se a meditar e estava de pé no mesmo lugar desde o amanhecer, perseguindo uma ideia, e, como ele não conseguia desvendá-la, ele continuou em pé, obstinadamente apegado à sua pesquisa. Era já meio-dia ; os soldados observavam e diziam com espanto uns aos outros : ele está lá a meditar em pé desde o amanhecer. Finalmente, pela noite, alguns soldados, depois de terem jantado, trouxeram as suas camas de campismo para fora, pois era então verão, para se deitarem ao ar livre, sempre observando esse homem, para ver se ele continuaria ainda em pé durante a noite ; e ele manteve-se com efeito nessa postura até à aparição da aurora e do nascer do sol ; depois foi-se, após ter feito a sua oração ao sol.

— Abrindo os olhos, à aurora, apercebi-me que os outros dormiam ou tinham partido, e que, sós, o hóspede, o seu companheiro e ele estavam ainda despertos e bebiam uma grande taça que circulava da esquerda para a direita. Ele falava com eles. O resto da conversa tinha-me escapado, pois não a tinha seguido do começo, como tinha adormecido ; mas em suma, parecia-me, ele tinha-os levado a reconhecer que cabe ao mesmo homem saber tratar a comédia e a tragédia, e que, quando se é poeta trágico por arte, é-se também poeta cómico. Forçados a reconhecê-lo, mas não seguindo mais da metade, eles abanavam a cabeça ; o hóspede foi o primeiro a adormecer, de seguida, como era já dia pleno, o seu companheiro. Ele, tendo os adormecido desta forma, levantou-se e foi-se. Eu seguia-o, como habitualmente. Ele apresentou-se ao liceu, e, após ter-se banhado, passou toda a jornada com ocupações ordinárias, então regressa a casa para descansar.

— Diz-lhe a verdade, que não tenho o desejo de rivalizar com ele nem com os poemas que compus, pois sabia que não era coisa fácil, mas que era para provar o sentido de alguns sonhos e que, para saldar a consciência, queria assegurar-me se era esse o género de música que me haviam prescrito a cultivar. Eis do que se tratava. Frequentemente, na minha vida passada, tinha a visita do mesmo sonho ; ele aparecia por vezes sob uma forma, por vezes uma outra, mas ele dizia-me sempre a mesma coisa : « Tu, faz obra de poeta e cultiva a música ». E eu, até então, acreditava que era precisamente isso que ele me encorajava e me excitava a praticar, e que, como se encorajam os corredores, o sonho me excitava, a mim também, a perseguir a minha ocupação, a praticar a música ; pois, para mim, a filosofia é a música mais alta, e é a ela que eu me aplico.

Mas que fada fabricou esse sonho ?

Fábrica de sonhos.

De súbito, a luz batia. A luz batia forte nas costas. Como sempre, felizmente. E sobre a superfície retangular branca ligeiramente prateada, que não o é mais, agora colorada e reanimada, de outra forma reanimada, porque há imagens, imagens em movimento, projetavam-se paisagens sobrepostas, insignificantes, anónimas, sem nomes, sobre as quais se sobrepunha pouco a pouco uma outra imagem, uma figura de flor em movimento — dizemos a nós próprios : « É uma flor ? », não, não o dizemos —, uma flor, modesta e bela, efémera e solitária ; nada mais que uma flor, em movimento, presente. Tratava-se da presença de um instante, florido e floral, a saber um destino, florido e floral, um destino, um destino projetado, em movimento, e como há uma flor, nós vemos uma flor, e dizemos que temos uma flor, era talvez o destino, o destino mesmo, o destino em vinte e quatro imagens por segundo : o mais efémero dos instantes, que possui um passado ilustre, como essas palavras e cores que ainda nos são desconhecidas. E depois de um tiroteio muito menos bem, muito menos bem filmado em relação àquele que fora filmado ao cabo duma cidade, esse muito finamente, muito divertidamente, aquela cidade cujas cenas quotidianas ou extraordinárias eram asseguradas pelas costas lisas do S. Chance, é pronunciada, pela boca de um homem que se assemelha muito a este homem de costas lisas, que de resto tem ele mesmo as costas lisas, mas aparentemente mais velho e talvez menos sólido fisicamente, uma réplica doce, amigável, e envolvente, tudo abraçando a mediocridade própria da série de imagens que vinham de se passar e que de resto continuam a passar-se, rendendo-a de repente, pela sua própria sonoridade, pela sua própria musicalidade, como alguma coisa à parte, singular, e bem preciosa, amorosa até, a voz diz : « Não me digas macio »

Sobre a areia da praia, a cada pegada, alonga-se o outono. Neste país, do qual a inesquecível memória que se esquece é salpicada de atos de vontade desesperada, não se esquece com facilidade que o dia de vestuários de outono será a terceira sexta-feira do mês de setembro, isto é em breve. Entre os passeantes, os habitantes, os últimos veraneantes, sobre uma praia não ainda completamente desertada, mas já muito menos frequentada, depois de um certo momento, começa a manifestar-se um homem. Ele é grande e bastante gordo, com os cabelos longos negros bem oleados, óculos espessos de quadro negro, pousados sobre um nariz um pouco imponente, desenfreado. Ele alonga-se frequentemente sobre a areia, só, sempre bem vestido, por vezes prestes a olhar e a escutar o mar, aquilo que o circunda, por vezes prestes a escrever qualquer coisa sobre um caderno. Talvez ele esteja prestes a escrever uma obra intitulada King of Portugal, uma composição para um conjunto de percussões, assim como para um coração.

A sua voz grave diz :

« Evidentemente, se o ataque instrumental em música produz sempre o mesmo plano acústico, alguma coisa deve ser feita para o ativar, o variar. É preciso demonstrar para que seja mais interessante. É porque a música é talmente preocupada pela diferenciação. Uma peça como Socrate de Satie, que dura e dura ainda, com muito pouca ação, muito poucas mudanças, é praticamente passada ao esquecimento. Naturalmente, toda a gente sabe que é uma maravilha. A cada ano, ouve-se dizer, a cada ano alguém propõe : « Sim, tocamos Socrate », mas, por uma razão ou por outra, nunca há seguimento. »

*

Trata-se em suma, diz o narrador que as escutava à sombra de Veneza, de um coro a três vozes que podem multiplicar-se indefinidamente.

Aquilo que me espanta n’O Marinheiro de Fernando Pessoa, drama sem drama, esse drama em alma, se quiserdes, como dizia o autor, é antes de tudo a qualidade da língua :  palavras. As personagens da peça — as três Veladoras, por exemplo — são apenas uma aparência, uma espécie de nomes, mas nomes vazios, em que todas as palavras são enterradas.

A cena textual é aqui aquela da linguagem, eminentemente trágica (eminentemente porque os corpos sem ação, a origem do coro — que é grega — é aqui de regresso com sucesso), audaciosamente discursiva (porque são palavras não necessariamente religadas entre si, que podem multiplicar-se indefinidamente), particularmente divertido poderia ser (« Aquilo que fui outrora não se lembra que sou » : memória que se esquece, que não saberia mais do que aflorar a nossa vida), e enfim simplesmente aberta (aberta, porque ela não está logo simplesmente fechada, porque ela não se fecha, não se fechará nunca, enquanto se lê) : quando o véu do silêncio tomba sobre as três Veladoras, então que essa consequência poderia levá-las ao silêncio — sobre aquilo que não se pode falar devemos calar-nos —, de facto elas não se calam, elas não se calam se não superficialmente, momentaneamente, em resumo elas não se calam ponto, e não se calarão nunca : « Mas porque falamos ainda ? »

Mas que fada teceu este véu ? Foi por malícia ou por amizade ?

É possível que essa abertura, mais ou menos voluntária, mais ou menos involuntária, a saber neutra, esse movimento contínuo, se dirija não apenas a outras obras textuais do mesmo autor (pessoa), àquelas de outros (alguns), mas também a outros médiums, meios, suportes, assim como às coisas, quer dizer, e para tudo dizer (como há tantas superfícies que ainda não brilharam), ao mundo, à prosa do mundo, o lugar no qual se encontram exposição e cinema, do qual fazem parte aliás.

Esse lugar, é também uma casa ?

Sim.

Esse lugar, é também um campo ?

Sim.

De ténis ?

Sim.

De futebol ?

Sim.

O comboio de Ciota continua a chegar ?

Sim.

Vós entrais no espaço, apresentais-vos nesse campo. Vós escutais o silêncio sussurrante, o sonho. Vós avançareis, fareis uma visita talvez, depois olhareis e escutareis as coisas, os momentos, aquilo que se passa lá e em torno. De seguida, talvez deslizareis pouco a pouco ou até de uma vez para o cinema, se assim entenderdes, em todo o caso a porta vos será aberta quando ela puder (ver os horários de Cinema). E lá se encontram, entre outras coisas, cadeiras vermelhas, órgão imenso, veritati, máquinas, silêncio sussurrante longínquo, e enfim uma superfície branca ligeiramente prateada, suspensa sobre a cena entre duas cortinas atlânticas. Talvez passareis o vosso tempo a ver e a escutar, assim como o quarto e os seus componentes, essa superfície retangular branca ligeiramente prateada ; concreta mas vaga, espantosamente inútil, ainda doce, simplesmente amigável, amigável para nós, para nós também (enfim, vós vereis e ouvireis se esse é o caso para vós, para vós também), lá onde se reflete a ilusão da realidade como um fantasma, lá onde se reflete a realidade da sua própria natureza superficial : ecrã.

Esse campo de signos, que ensaio de render sensível, sensual, e palpável — para que o seu volto revenha, vivaz e transitório, verso vossas mãos que não se ignoram, para que ele vibre em uníssono com a natureza — que digo eu ? em uníssono com a nossa consciência — através de meios cinematográficos, imateriais, mas igualmente materiais desta vez (pois haverá também objetos expostos — dados, garrafas, livros, etc., disfarçados de ligeiros divertimentos). A partir de agora há nomes, ainda que saibamos que há tantas auroras que ainda não brilharam, e que o seu voo possa revir verso nós, tal qual é, sem nomes. Nós preferiríamos então, seguramente, justamente, que esses nomes não chegassem se não mais tarde, muito mais tarde, depois de tudo, quer dizer nunca. Ora, que somos então nós que deslizamos em direção a ele, nele, se de acordo e admitido, mas nesse caso, nós adoraríamos certamente poder deslizar docemente, lentamente, sub-repticiamente em direção a ele, nele, talvez e se possível, com as coisas, as imagens, os sons, os tempos, os eventos, os movimentos, assim como os seus interstícios.

— Como se chama, quando o dia se levanta, como hoje, e que tudo está estragado, e que tudo está saqueado, e que o ar ainda se respira, e que tudo se perdeu, que a cidade arde, que os inocentes se matam uns aos outros, mas que os culpados agonizam, num canto do dia que se levanta ?

— Pergunta-lhe a ele. Ele sabe.

— Tem um belo nome. Assim se chama a aurora.

Além de uma vasta aurora
Para que seu voo revenha verso
Tua pequena mão que se ignora
Marquei esta asa de um verso

 

 

Agenda

Oct 2022

20
Exposição

Sala de Exposições da EA

Rua de Diogo Botelho 1327
Porto4169-005
Portugal
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