"Brandos Costumes, Velhos Costumes"

Programa do Ciclo:

SÃO JORGE (19 OUT) + info

RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA (26 OUT) + info

MUDAR DE VIDA (02 NOV) + info

 


 

19/10/2021, 18h30 | AUDITÓRIO ILÍDIO PINHO

SÃO JORGE
de Marco Martins 
Portugal, 2016, 112'

 


Sinopse

 

Jorge, um boxeur tornado cobrador de dívidas, deambula por uma Lisboa em decadência tentando estabilizar a sua vida apesar do mundo violento para o qual é arrastado.
 

 

Folha de sala 

 

"Rogai por nós"

por Diogo Pinto (alumni Licenciatura em Som e Imagem)

No início de São Jorge, somos imediatamente confrontados com espaços abandonados, de onde a presença humana parece ter desertado. Não são cenários distópicos de ficção científica, mas sim a Lisboa de 2011, em que a renda é demasiado alta, os trabalhadores não recebem, as empresas endividam-se e mesmo as ruas vazias são asfixiantes.

A sensação que convocam parece assombrar todo o filme. Esta Lisboa é também ela personagem, uma desolação que se afigura quase como antagonista. De facto, ainda que o título remeta para um certo martírio do pugilista tornado cobrador de dívidas, este funciona também como uma sinédoque, referenciando o castelo emblemático e lembrando que a luta a que assistimos é colectiva.

Mais do que narrar apenas a história de Jorge, o filme procura pintar um retrato do tecido social afectado pela crise. Vemo-lo nas conversas à mesa em casa de Jorge, nas reuniões entre trabalhadores e patrões na fábrica. Não ouvimos a palavra troika durante o filme, apenas a lemos no texto inicial. Mas, tal como os planos iniciais, essa é uma palavra que assombra as acções de todos os personagens. Ainda que todos estejam mergulhados em profundas dificuldades, a união e a entreajuda não parecem ser solução para os problemas. A discórdia é semeada à mesa (cuidado com os estrangeiros que nos roubam o trabalho) e a violência (fora do ringue) torna-se um trabalho legítimo para escapar ao desespero. Ao longo do filme vemos por diversas ocasiões planos gerais com um solitário Jorge no meio de espaços quase abandonados, ruínas ou ruas anónimas: estamos todos juntos nisto, mas tão sozinhos.

O título do filme referencia, também, a lenda do santo que derrotou um dragão. Na lenda de São Jorge, o dragão rondava uma aldeia, exigindo um tributo aos aldeãos, pago em gado, e, posteriormente, em carne humana. Se, ao longo do filme, Jorge se aproxima mais do dragão, dada a sua entrada no mundo da cobrança (violenta) de dívidas, no final da narrativa parece ter alcançado alguma expiação. Ao contrário do santo, Jorge não mata o dragão explorador (será possível um só homem derrotar o capital?), mas consegue deixar de fazer parte desse mundo, e essa é já uma vitória. E se, derrotando o dragão, São Jorge salva uma princesa, é também depois de deixar o trabalho de cobrador que Jorge se reconcilia com Susana, mãe do seu filho.

Não há um mágico final feliz para esta história, não sendo contudo inteiramente negativo. Como Jorge diz ao seu filho, "às vezes há chuva e Sol ao mesmo tempo".

 

Richardson, N. (2004). The queer activity of extreme male bodybuilding: gender dissidence, auto-eroticism and hysteria. Social Semiotics. 14:1: 49-65.


 

 

26/10/2021, 18h30 | AUDITÓRIO ILÍDIO PINHO

RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA
de João César Monteiro
Portugal, 1989, 122'

 


Sinopse

"Vai. E dá-lhes trabalho!" Até à consagração de Lívio, e sua transfiguração em Nosferatu, João de Deus terá ainda que se tornar num homem livre, passando pelas duas "casas amarelas". Primeiro, pela velha pensão da Lisboa ribeirinha, de onde será expulso pela dona depois de intentar contra o pudor de sua filha. Depois, pelo duro hospício, a que se vê condenado por uma vida urbana que confronta solitário, sem recursos, sem abrigo.


Folha de sala 

Do Sagrado à Abominação, ao Sagrado Outra Vez.”

Por Miguel Mesquita (Mestrado em Cinema)

“Não se abre um filme com uma igreja por acaso” (1). É com uma leitura de Céline sobre negro, e depois com um desafogo acompanhante ao horizontal travelling de Lisboa e suas docas sobre o Tejo, que pela primeira vez o ouvimos. Mas é numa ermida, em oração – após imagem da Virgem – que João de Deus se dá a conhecer na totalidade. Provocatoriamente, Monteiro assim o faz, em clara antecipação do que aí virá. Recuperando o preâmbulo ao seu Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço, “muitas inocências ir[ão], entretanto, ser violadas”.

Discutível, pelo não tão inocente caráter destes seres que habitam a Lisboa da “Trilogia de Deus”, mas de entre os quais João de Deus se destaca, pela rejeição flagrante a tudo o que é norma ou conduta, ao que é usualmente castigado, e remetido a espaços repressores – o hospício, o hospital, a prisão. No caso de Recordações, o personagem vê-se condenado a uma existência tortuosa antes sequer de qualquer sentença, pela cidade incompassível, que primeiro se fará notar pela Pensão da Dona Violeta, e só depois pelas suas próprias ruas, a que se verá desamparadamente sujeito.

É, na verdade, a própria cidade a raiz dos seus males, pela alienação, doença e austeridade que carrega, ponto de partida da curiosa circularidade da sua interação com João de Deus: o mal-estar que Lisboa força no personagem desvia a sua moralidade, num jogo de tal modo extremado que o despoja de habitação, e depois sanidade; mas quando este se aventura num questionamento das suas estruturas, desprivá-lo-á ainda da sua liberdade, pela intolerabilidade da sua perversão; suposta vitória sobre João de Deus pela cidade, que será, contudo, vítima da hubris, quando ele encontrar a cura na atormentação e assombração do seu espaço. Inverte se a sua dinâmica, passando Lisboa a vítima das atitudes invasivas do recém transformado Nosferatu - posição que se manterá até ao fim do seguinte installment, ao que se detém que a luta entre personagem e urbe não se desfaz, sendo feita de pequenas instâncias de vitória e sobreposição.

Vista a diegese, esta é também uma vitória do seu autor no plano formal e diretorial, elevando a clássica “comédia lusitana”, com os seus planos de praça (“cada um sabe de si e Deus sabe de todos”), presença popular e linguajar típicos, a uma nova forma, mais rude e algo grosseira, mas não abjecionista, como Monteiro fazia questão de ressalvar:

“(...) não sou um cineasta da abjeção. Sou um cineasta da abominação. Há coisas que são abomináveis, e isso eu mostro. Eu faço filmes para mostrar isso. Mas este não é o meu primeiro filme. Andamos aqui há anos, os filmes seguem-se uns aos outros e há uma lógica nisto tudo: é passar da abominação ao sagrado.” (2)

 E não haverá mais sagrado do que o surpreendente plano dos portões do Hospital Miguel Bombarda, que nos devolve João de Deus, e lhe garantirá a transfiguração seguinte, em criatura sobrenatural, e criatura de cinema.

(1) Costa, J. B. (2010). Recordações da Casa Amarela. Em Costa, J.B. et al., As Folhas da Cinemateca: João César Monteiro (pp. 58-64). Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema.

(2) Monteiro, J.C.; Silva, R.D. (2005). Em Nicolau, J. (Org.) João César Monteiro (pp. 352-367). Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema (entrevista originalmente de 1992).


 

 

02/11/2021, 18h30 | AUDITÓRIO ILÍDIO PINHO

MUDAR DE VIDA
de Paulo Rocha 
Portugal, 1966, 103'

 


Sinopse

Fortemente influenciado pela nouvelle vague, Paulo Rocha explora os temas de redenção e o efeito sócio-cultural da emigração em Portugal nos anos 60. Mudar de Vida segue Adelino no seu regresso a casa. Após servir o serviço militar obrigatório em África, este regressa para encontrar um Portugal diferente daquele que ele tinha deixado para trás.

 
 

Folha de sala 

“O Meu País é o que o Mar Não Quer”

por Vasco Vasconcelos (mestrando em cinema)

 

De um grupo de novos realizadores portugueses que no final dos anos 50 e início dos anos 60 se espalharam pela Europa e aí tiveram contacto com a vanguarda cinematográfica, talvez nenhum outro tenha um papel tão decisivo no cinema feito em Portugal como Paulo Rocha. Em conjunto com mais dois ou três filmes de outros realizadores, Os Verdes Anos – primeira obra de Rocha – e Mudar de Vida são o molde do “novo cinema português”. Mas enquanto o primeiro era carregado de urgência e uma espécie de manifesto de uma geração com pressa de introduzir uma nova sensibilidade, Mudar de Vida é um caso particular de austeridade e delicadeza, fruto de uma visão mais íntima e da vontade de retratar um lugar e um modo de vida enraizados na memória do realizador. Ainda que muito distintos, os dois filmes começam com uma chegada para não mais deixarem de sugerir uma partida. Talvez aí esteja já um indício daquilo que João Bénard da Costa considerava ser o tema de fundo do cinema português: um país que é ao mesmo tempo um profundo amor e uma profunda maldição. 

Se, em Os Verdes Anos, um jovem abandona a sua terra à procura de uma vida melhor na capital, em Mudar de Vida, Adelino volta a casa depois de perder a juventude numa guerra além-mar. Regressado de África, encontra uma vila que quase não reconhece e uma vida que lhe trocou as voltas. Júlia fartou-se de esperar por ele, de anos sem uma letra. No Furadouro, a paisagem alterou-se e as estruturas ficaram expostas: uma comunidade desmembra-se e desespera perante o mar esfomeado, que não distingue entre a casa grande e os pequenos palheiros que mal se equilibram nas dunas. Um poço escorchado parece uma chaminé, mesas e cadeiras são arrastadas pelas ondas. A vida leva ainda outras coisas: os velhotes, as companhas, até os costumes leva. Sobrevivem alguns no filme: festas em honra da Senhora da Saúde; o Bendito, cantado em alto-mar pelos pescadores; bailes na noite de São João – Ora aperta, amor, aperta, aperta a minha cintura. Este nosso bem-querer só tem fim na sepultura. Danças macabras em que cada um faz o que pode e o que todos fazem é comer-se uns aos outros. O filme vai perdendo os vestígios neo-realistas e prossegue sob o signo de Mizoguchi, cerzido pelas subtis linhas de guitarra e flauta de Carlos Paredes e pelos irrepreensíveis diálogos, escritos e reescritos por António Reis em cima de cada cena – “cada dia mais magro, sempre em suores frios, à procura da vírgula, da pausa, da assonância secreta e expressiva”, como dele se lembra Paulo Rocha. Entre águas, Adelino vagueia só. Voluntário à força, querem que troque o mar pela ria, a areia pelo sal, as redes pelos círculos, trapézios e quadrados. Vão-se os precários palheiros, os vagalhões que balançam os barcos, os bois que lavram o oceano. Vêm as águas paradas e os pântanos, os moliceiros a rasgar a neblina, as correrias pela mata. Pescador de água doce, Adelino encontra Albertina, rebelde e esquiva, pássaro de arribação. Segredam tristezas, moem águas passadas, fazem contas ao que há a perder e a ganhar. Afinal, ias daqui para algum lado?